O herbicida não pode substituir o cantoneiro
Não era preciso tanto para concluirmos que afinal o Dia Mundial do Ambiente não passa de uma fantochada, como de resto outros que são lembrados apenas pelo interesse do comércio.
Quem mora ou passa na freguesia de Moure, Concelho de Barcelos, já se habituou aos atentados ambientais praticados em tudo o que é estrada ou caminho, que ironicamente já chamam rua mesmo que seja um caminho rural de terra batida ou uma simples cangosta ou carreiro de cabras.
Era o dia Mundial do Ambiente (5 de Junho). Enquanto eu próprio promovia uma acção de limpeza e sensibilização ambiental na zona envolvente aos moinhos de água, situados ao descer a encosta da Serra naquela freguesia, dois funcionários da Junta regavam com herbicida tudo o que era caminho e espaço público. Infelizmente há outros autarcas com o mesmo comportamento, mas para a Junta desta freguesia esta terá sido a melhor forma para assinalar o dia em que somos convidados a reflectir sobre o Ambiente.
Não era preciso tanto para concluirmos que afinal o Dia Mundial do Ambiente não passa de uma fantochada, como de resto outros que são lembrados apenas pelo interesse do comércio.
Pobre ambiente!
Primeiro foram os agricultores a não resistir às tentações de uma política agrícola repleta de consequências negativas não só para o ambiente mas também para a natureza e para a nossa própria saúde. Dominados pela modernização da agricultura, que veio retirar a vontade e o gosto de trabalhar a terra afastando a azáfama e a alegria que se vivia intensamente nos campos, deitaram mãos a uma variedade de pesticidas e outros produtos químicos, entre os quais o herbicida. Sem qualquer preocupação “envenenaram” a terra, contaminaram a água e os lençóis freáticos, poluíram o ambiente, destruíram o manto colorido que outrora cobria os campos com as mais variadas cores naturais jamais encontradas pelo pintor mais famoso que pinta debaixo do sol, e fizeram desaparecer pássaros, insectos e toda a bicharada que vivia à face e debaixo da terra.
Como se não bastasse, e conhecidas que são as consequências que afectam tudo e todos, ainda aparecem por aí uns senhores da política com estas barbaridades, quando deveriam ser os primeiros a dar o exemplo. Com aquele “maldito” líquido, que estou certo de que um dia há-de ser proibido, borrifam tudo o que lhes aparece pela frente destruindo a paisagem, o ambiente e a natureza. Entre casas, jardins e férteis campos de pão e de vinho não importa se é uma zona de lazer, se há poços ou nascentes, rios ou ribeiros, fontanários, e mesmo portas de acesso às habitações, ao galinheiro ou ao curral. Além das consequências para o homem, são inúmeros os insectos e outros animais que desaparecem ou são afectados no meio da vegetação que cresce nas bermas e nos buracos das paredes. Poucos dias depois da borrifadela, orgulhosos do cenário provocado pela dose do veneno com que negaram a força da natureza, contemplam aquilo que mais parece um rasto de fogo, num olhar como que a “desafiar” a natureza a mostrar de novo o seu poder regenerador para testar nova dose.
Quanta saudade e tristeza me invade a alma ao passar e não sentir o contacto com a natureza, o cheirinho das ervas e flores e o seu brilho pelo sol cintilante.
O herbicida não pode substituir o cantoneiro.
O Ambiente é um dom patrimonial que a todos pertence. Rico ou pobre, homem ou mulher, criança ou idoso, analfabeto ou cientista, político ou ambientalista, poderoso ou indefeso, todos temos o dever de o proteger e o direito de dele usufruir. Mesmo enveredando por uma política envenenada e queimada ninguém terá legitimidade para andar na via pública a poluir a terra que é de todos e o ar que nela respiramos.
Político que não tenha sensibilidade para as questões do ambiente deveria pedir desculpa ao seu eleitorado e arrumar a camisola, que porventura até tenha trocado.
