
A cidade sem maestro
Raramente Barcelos viveu, numa única noite, uma ag...
Tinha o dom, raro, de falar de forma simples das coisas complexas. Também com humor.
Há coisa de um ano o Miguel esteve em Barcelos para participar num ciclo de conferências promovido pela ACIB. Com o salão dos Bombeiros cheio e no seu habitual tom coloquial e pedagógico, falou da crise do euro e da Europa. Tinha o dom, raro, de falar de forma simples das coisas complexas. Também com humor. A sua preocupação é que todos pudessem entender, porque as coisas complexas fazem parte da vida, do quotidiano, das pessoas comuns. Abordava a política sempre na perspetiva de que a política não é um problema de alguns, de uma pretensa elite. Costumava dizer-nos que "se nós não tratarmos da política, a política tratará de nós", num vincado apelo à participação de todos na coisa pública, fosse ao nível europeu, nacional ou local.
Nessa altura a doença já o tinha atacado. Mas não desistiu do seu trabalho, apesar do sofrimento que podemos imaginar, sempre bem disposto, afável e com um sorriso que lhe deve ter ficado da adolescência. No Parlamento Europeu, enquanto se submetia aos tratamentos, mantinha uma elevada e reconhecida participação. Na última campanha eleitoral para as Legislativas, fez questão de participar no comício em Braga, na Avenida Central, com entusiasmo, solidário, transmitindo toda a sua força num momento de grandes dificuldades.
Há cerca de dois meses jantámos juntos pela última vez, ali perto da Sé, em Braga. Fomos a pé, devagar, conversando, até à Casa dos Crivos, onde ele, mais uma vez, ia falar sobre a Europa, a crise e como até aqui tínhamos chegado. Com a sua habitual clareza e empatia.
Já não nos encontrávamos com a mesma frequência com que o fazíamos antes de ele ter ido para o Parlamento Europeu. Habituei-me, nos últimos anos, a que o Miguel andasse algures entre Bruxelas, o Mediterrâneo ou o norte da Europa e que, mais dia, menos dia sempre nos encontrávamos de novo, para uma iniciativa política, para uma simples conversa, para um encontro com amigos e camaradas, em Barcelos, Braga, Lisboa ou numa outra qualquer cidade. Tinha sido assim mais mês, menos mês nos últimos anos. E esta ideia ainda não me saiu da cabeça. O Miguel fazia hoje, 1º de Maio, 54 anos.
0

Raramente Barcelos viveu, numa única noite, uma ag...

Nunca se produziu tanta riqueza no mundo. Nunca ho...

Existe um padrão inquietante na gestão municipal d...

Muitas das decisões que irão marcar Barcelos daqui...