Farinha do mesmo saco
EDITORIAL
O cenário, então como hoje, e em ambas as situações seria, como se está agora a ver, sempre calamitoso.
Quando a Câmara presidida por Fernando Reis anunciou, há cerca de dez anos, que iria privatizar ou concessionar a distribuição da água ao domicílio denunciámos logo aí que o negócio seria ruinoso para o município e, mais ainda, para os cidadãos do concelho. Não por termos o dom da premonição ou sequer por nos considerarmos mais clarividentes do que o comum dos barcelenses, antes porque a vida nos tem ensinado que a lógica de lucro, própria do sistema capitalista, não é compatível com as obrigações sociais a que os vários poderes públicos estão constitucionalmente vinculados, nomeadamente o da distribuição de água às populações.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, também nunca acreditamos na promessa de baixar em 50% os tarifários da água, feita pelo actual presidente da Câmara para ganhar as eleições – e dissemo-lo também aqui – porque isso implicaria uma subversão do sistema, que a empresa e os poderes instituídos, a coberto da legislação liberal aprovada pelos grandes partidos políticos nacionais (PS e PSD), nunca iriam aceitar.
O cenário, então como hoje, e em ambas as situações seria, como se está agora a ver, sempre calamitoso. De facto, se a privatização ou concessão se revelou uma desgraça para os bolsos dos barcelenses, fruto das exorbitantes taxas de ligação e do aumento dos tarifários, a promessa leviana de baixar em 50% esses tarifários ameaça levar a Câmara à inacção (ou falência técnica, se quisermos ser mais rigorosos).
O actual presidente da Câmara, em face das notícias que dão conta da confirmação judicial que obriga o município ao pagamento de 172 milhões de euros à Águas de Barcelos (AdB) para supostamente promover o reequilíbrio financeiro da concessionária, veio agora dizer que já teria um acordo de princípio com os accionistas desta empresa para remunicipalizar as redes de distribuição de água e de saneamento básico. Mas não diz como é que vai fazê-lo, escudando-se na confidencialidade das negociações. Ou seja, a acreditarmos nesta possibilidade e traduzindo as suas palavras em linguagem mais corriqueira, o estrugido continuará a ser confeccionado à revelia dos que, sem terem lugar à mesa, pagarão a factura da comezaina.
De todo o modo há que equacionar ainda as dúvidas – e são muitas – que se colocam sobre o resultado a que conduzirão estas hipotéticas negociações entre a Câmara e os accionistas da AdB. Na verdade, ao longo dos quase cinco anos que já leva de governação autárquica, este executivo municipal tem deixado recorrentemente verter a ideia de que a resolução para o imbróglio da água (legado, não se esqueça, pelo PSD) estava para breve. Só que o breve tornou-se longo. E o amanhã de ontem transmutou-se no amanhã das calendas. Por isso, depois de tantos amanhãs prometidos, gostaríamos, desta feita, de acreditar na bondade das palavras do presidente da Câmara. Acontece, porém, que depois de o ouvirmos dizer, finalmente, que não haveria mexidas nos tarifários da água, descartando assim com toda a naturalidade a promessa de os baixar em 50%, somos levados a crer que estamos perante mais uma mistificação. Oxalá nos enganemos.
Resumindo e concluindo, se é verdade que Fernando Reis é o principal responsável pela mercantilização desastrosa de um bem essencial à vida, como é a água, também não restam dúvidas de que a demagogia e a inépcia de Miguel Gomes na condução de todo este processo terão ajudado a furar em definitivo os já puídos bolsos do povo do concelho. Nada que surpreenda. Afinal, nesta questão da privatização do abastecimento público de água, PS e PSD não se diferenciam, são farinha do mesmo saco. Basta ver o que se passa à nossa volta noutros concelhos vizinhos.
