Conquistas de Abril
EDITORIAL
Está, portanto, na hora de mudar de rumo. A retórica da defesa das “Conquistas” de Abril tem que dar lugar a um novo desiderato, a novas exigências de justiça social, a uma verdadeira e real distribuição equitativa da riqueza.
A defesa das “Conquistas” de Abril, que alguns sectores do velho republicanismo e de grande parte da esquerda parlamentar reclamam, particularmente nestes períodos de lembrança da Revolução dos capitães, mais do que corresponder a uma realidade, será, porventura, sinónimo de uma aspiração que nunca se cumpriu, como não se cumpriu também o Desenvolvimento prometido nos celebrados três D’s anunciados em 1974.
Na realidade, se algumas coisas se desenvolveram expressivamente em Portugal, nestes últimos 40 anos, foram a especulação financeira, o crescimento exponencial das grandes fortunas, a promiscuidade entre governantes e barões da indústria e donos das grandes cadeias de distribuição, a impunidade dos corruptos e dos ladrões de colarinho branco que se servem do erário público para cobrir as falcatruas da banca, enfim, o fosso cada vez mais cavado entre ricos e pobres.
Enquanto isso, o desenvolvimento económico no resto da Europa e o bem estar das suas populações, mesmo naqueles países onde o capitalismo cavalga desabridamente o mundo do trabalho, deixa envergonhadas as tímidas “Conquistas” de Abril, tais são as diferenças de nível de vida, de protecção na doença, no desemprego e na velhice, de acesso ao ensino e à saúde, ou de remuneração da mais-valia gerada pelo operariado. Na Irlanda, que à semelhança de Portugal – e também com a cumplicidade das maiorias políticas – recorreu à troika para resolver os problemas financeiros provocados pela criminosa burla engendrada pela banca, rir-se-ão, por certo, se lhes disserem que as chamadas “Conquistas” de Abril estagnaram o salário mínimo nacional em metade do que é auferido pelo menos qualificado dos seus trabalhadores. E na Grécia, onde o experimentalismo social dos agentes do capitalismo internacional tem encontrado mais resistências do que entre nós, o salário mínimo nacional é superior em mais de cem euros mensais ao que é pago aos trabalhadores portugueses, apesar de ali não haver “Conquistas” de Abril a defender.
Está, portanto, na hora de mudar de rumo. A retórica da defesa das “Conquistas” de Abril tem que dar lugar a um novo desiderato, a novas exigências de justiça social, a uma verdadeira e real distribuição equitativa da riqueza. Dessa forma, sim, poderemos então falar de defesa de conquistas.
Sabemos que a tarefa não é fácil, e nem sequer temos a certeza se será exequível, mas não temos dúvidas de que se não se mudar de estratégia, se não se lutar por objectivos mais ambiciosos, o destino do povo português continuará entregue ao seu fado e à mercê do liberalismo de matriz calvinista – agora mais perto da Grande Place, de Bruxelas, do que do Terreiro do Paço, de Lisboa.
Se alguma lição podemos extrair da História, ela é a de que ao rescaldo de uma revolução, regra geral sucede uma reacção, e quase sempre mais violenta do que a ruptura que lhe está na origem. Em Portugal, a reacção dos que supostamente perderam os seus privilégios há 40 anos, em Abril, não é nova. Tem uma capilaridade de dezenas de anos. Por essa razão, e à primeira vista, a reacção em Portugal parece mais suave. Mas agora, fruto da conjuntura internacional e dos apoios que lhe vêm da União Europeia, a direita tenta liquidar de vez os pequenos avanços sociais que a custo foi obrigada a conceder.
Para este avanço só há uma solução: a resistência, a insurreição. Não necessariamente pela força das armas ou pelo ressuscitar de novas formas de ludismo social, antes, numa primeira fase, pela consagração de esforços de união à esquerda. E depois, então sim, responder decididamente à violência social que está a conduzir o País para o abismo. De contrário, corremos o sério risco de caminhar a passos largos para uma reedição do Estado Novo, ainda que disfarçado pelo palavreado cínico, melífluo e demagógico de Passos e Portas.
