
A cidade sem maestro
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"Os primitivos calendários da História que chegaram ao nosso conhecimento são o Hebreu, o Egípcio e Grego que, com vários erros e métodos muito desordenados e falíveis, chegaram até ao domínio Romano".
Lá vamos nós trocar de calendário, enviando o velho para o lixo ou coleccionando-o, colocando nas nossas paredes, num local vem acessível à vista, o calendário do ano novo.
O homem, desde os tempos imemoriais, sempre ficou deslumbrado pela sucessão dos dias e das noites e pelas fases da Lua, conduzindo e dando explicação, no início através de observação empírica e mais tarde já com noções muito científicas, às mutações do dia e mês. Posteriormente, com o desenvolvimento, principalmente da agricultura, o Homem apercebeu-se do ciclo das estações e, consequentemente do ano.
Os primitivos calendários da História que chegaram ao nosso conhecimento são o Hebreu, o Egípcio e Grego que, com vários erros e métodos muito desordenados e falíveis, chegaram até ao domínio Romano,
Foi esta desordem que Júlio César resolveu acabar e, dado que não tinha confiança nos poderes ‘científicos’ dos seus pontífices, chamou a Roma os astrónomos gregos, principalmente da Escola de Alexandria, para elaborar um novo calendário. Assim, no ano 45 ac, foi aprovado o Calendário Juliano.
Quando o Cristianismo se tornou religião oficial do Império Romano, no tempo de Constantino, foram fixadas regras no Calendário Juliano para a determinação da data da Páscoa. Como os povos cristãos de diferentes regiões celebravam a Páscoa em datas diferentes, mesmo que não fosse a um Domingo, o Concílio de Niceia, fixou a Páscoa ao Domingo, pois Cristo tinha ressuscitado nesse dia, 16 Nissan do calendário Judeu. A Páscoa passaria a ser celebrada universalmente, no Domingo seguinte à lua cheia (plenilúnio) que tivesse lugar no equinócio da primavera. Esta mobilidade que oscila entre 22 de Março e 25 de Abril (este ano a Páscoa é no dia 24 de Abril) cria várias perturbações nas actividades escolares, judiciais e económicas.
Este calendário foi substituído no século XVI pelo calendário actual, dito Gregoriano, pois a reforma partiu do Papa Gregório XIII a fim de rectificar vários erros do calendário Juliano, entre quais desfazer um erro de 10 dias já existente. Para isso, a bula papal, datada de 24 de Fevereiro de 1582, ordenava que o dia imediato à quinta-feira 4 de Outubro fosse designado para sexta-feira dia 15 de Outubro.
É este calendário que vigora até aos nossos dias, mas nem sempre foi assim.
Os Revolucionários Franceses de 1789 não só trataram de liquidar o antigo regime e de entregar o poder ao povo, como prosseguiram com reformas muito inovadoras no plano político e administrativo. E inspirados pelas ideias da razão pura acabaram com a até aí a organização do tempo que dominava o Antigo Regime: o calendário gregoriano.
Deste modo, o poder revolucionário encarregou a Convenção Nacional que, apoiada por vários cientistas, concebeu o denominado Calendário Republicano adoptando o sistema decimal: o ano tinha os mesmos 365 dias, a semana 10 dias, chamadas décadas, definidas pela seguinte ordem: Primidi, Duodi, Tridi, Quartidi, Quintidi, Sexitidi, Saptidi, Octidi, Nonidi e o dia festivo Decadi.) , o mês 30 dias com 3 semanas; o dia tinha 10 horas, a hora 100 minutos e o minuto passou a ter 100 segundos. Os santos de cada dia foram substituídos por nomes de animais, fruta e legumes. Assim os dias terminados em 5 eram reservados a um animal, os em 0 a ferramentas de trabalho. Instauram-se dias como o dia da cereja, da maçã. do centeio, da cevada, do pepino, do cogumelo, rosas. Faisão, etc. etc.
O ano novo começava no dia 22 de Setembro de 1792, porque era neste dia que ocorria o equinócio do Outono e, portanto, o dia era igual à noite. Como acima referi, o ano tinha na mesma 365 dias, mas como com o novo calendário só se contavam 360, os dias 17 até 21 de Setembro eram dias festivos conhecidos pelos ‘sans coulotes‘ dias do povo e cada dia recebeu um nome: dia da Virtude, dia do Saber, dia do Trabalho, dia da Razão, dia da Gratidão e ainda o dia da Revolução que só se aplicava nos anos bissextos.
Os meses eram agrupados nas estações do ano de acordo com os solstícios e equinócios e recebiam nomes relacionados com agricultura e clima: como o ano começava em Setembro o primeiro mês, portanto no Outono, era o Vindimário (mês das vindimas); Brumário (mês do nevoeiro ) e Frimário (mês do gelo) ; no Inverno os meses de Nevoso (Mês das neves); Pluvioso (mês das chuvas) e Ventoso (Mês dos Ventos); na Primavera os meses de Germinal (mês da germinação), Floreal (Mês das Flores) e Pradial (mês dos Prados) e finalmente no verão Mesidor (Mês das Colheitas); Termidor (Mês do Calor ) e Fructidor (Mês dos Frutos).
A ordem horária só durou cerca de 3 anos, dado a contestação ao novo sistema. Apesar da existência desde o século XV do relógio do bolso, o mesmo foi popularizado nesta época, para que as pessoas continuassem a identificar-se com o sistema antigo no seu dia a dia, sem que pudessem ser sancionadas. O calendário durou mais tempo. Foi Napoleão Bonaparte já senhor todo poderoso de França e, talvez querendo cair nas boas graças da Igreja, voltou ao calendário gregoriano no dia 1 de Janeiro de 1806. Este calendário voltou somente a ser usado na Comuna de Paris de 1871. Podia-se contestar o método deste calendário, mas pelo menos tinha uma grande vantagem: era sempre o mesmo e, por isso, não era necessário mudá-lo todos os anos.
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