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Eleições autárquicas e o ser de uma terra

A partir de uma certa fase da história da democracia portuguesa, as eleições autárquicas deram origem a um novo conceito: o “paraquedismo”.

O conceito traduz o fenómeno da indicação como candidatos autárquicos de personalidades sem qualquer vínculo (pessoal ou profissional) com a autarquia a que se candidatam. Embora se associe ao paraquedismo político um juízo negativo, o certo é que muitos dos ditos paraquedistas ganharam as eleições a que concorreram, e, em muitos casos, apesar das desconfianças iniciais, os resultados da respetiva governação foram mais do que razoáveis.
Considerando o seu específico recorte, o paraquedismo político nunca existiu em Barcelos. E, tanto quanto se sabe, a situação assim se manterá nas próximas eleições autárquicas. Com efeito, os candidatos à câmara municipal e à assembleia municipal são de Barcelos ou, quando isso não sucede, têm ligações, mais ou menos consistentes, a Barcelos.
Eu – o doutor de Coimbra (sem aspas, diga-se) que concorre –, também cumpro o requisito, pois sou de Barcelos. Mais: sou tão de Barcelos como qualquer outro que nasceu, vive e trabalha nesta terra.
É verdade que o “ser de uma terra” não constitui uma realidade que se possa reduzir ao local em que se nasceu. Muita gente nasce em sítios e terras por um mero acaso.
No futuro, por causa da infeliz política das maternidades – protagonizada pelo famoso socialista Correia de Campos – ninguém nascerá em Barcelos, mas, claro, continuará a haver pessoas “de Barcelos”. Assim será porque tem de se distinguir entre a terra “de que a pessoa é” e a terra “em que a pessoa nasceu”.
Contudo, se o mero facto de nascer numa terra não autoriza que, em sentido radical e não apenas superficial, a pessoa se possa considerar dessa terra, é caso de perguntar então que circunstâncias permitirão vincular alguém a uma certa terra.
Pois bem, de quem nasceu, cresceu, trabalha e vive numa terra pode certamente dizer-se que “é” dessa terra.
Mas o mesmo raciocínio vale para quem nasceu e cresceu e, apesar de não viver nem trabalhar na “sua” terra, mantém com esta ligações pessoais, familiares e afetivas, materializadas ainda em contactos frequentes e regulares e até com dimensões logísticas. A conclusão oferece-se ainda mais inquestionável quando a mesma pessoa é associada por todos aqueles que vai conhecendo ao longo da sua vida como alguém da tal terra, da “sua” terra.
Porventura, seriam dispensáveis e supérfluos outros acrescentos para reforçar a minha argumentação, mas, porque a revelação se apresenta oportuna, observa-se que a ligação pessoalmente profunda de uma pessoa à sua terra, a Barcelos, assume o estatuto de um dado incontornável quando, a fechar o prefácio de um livro importante da sua vida académica, essa pessoa escreveu: Barcelos, Agosto de 2007.
Ao exposto e a finalizar, adiciona-se uma nota, para esclarecer que o ser de uma terra não representa, por si só, um fator de especial credibilização de alguém para o exercício de um mandato autárquico nessa terra. Digo-o aqui sem hesitar: não é por ser de Barcelos que me sinto capaz de exercer bem o cargo a que me candidato. Ser de Barcelos – condição que eu cumpro – não me torna melhor, nem mais apto do que os meus concorrentes conhecidos. Isto é assim por uma razão muito simples: quanto a ser de Barcelos, estamos iguais.
Este artigo foi escrito em minha casa, em Carapeços; trata-se de uma freguesia da “minha terra”: Barcelos.

Opinião

Barcelos Popular
12 de Jul de 2013 0

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