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Um governo de classe

EDITORIAL

A prova desta trajectória de classe é a criação de um sistema de saúde para ricos e outro para pobres.

O governo Passos/Gaspar tem um caminho bem definido: reconstruir o sistema capitalista na versão mais selvagem que tem na sua estrutura social a diferenciação profunda de classes. Para conseguir tal desiderato precisa de remover todas as conquistas que o sistema assimilou despois da revolução do 25 de Abril e que se constituem como uma barreira ao domínio dos mais ricos sobre os de menores recursos.

Obviamente que acreditamos que queira resolver o problema da dívida, pois seria sempre natural porque quem sustenta a banca, os grandes especuladores financeiros e os proprietários que estão na retaguarda a comprar tudo, são os agentes políticos do Neoliberalismo. Porém, o caminho da resolução financeira do Estado português não implica a destruição do Estado Social, muito menos cavar tal fosso entre as classes sociais. No entanto, de forma politicamente oportunista, o governo está a aproveitar o momento para Refundar o Estado, isto é, acabar com um Estado Providência, nascido no dealbar do socialismo e da social-democracia na Europa, que protege os mais necessitados e apoia – de forma democrática – a população em geral, propiciando saúde, escola, transportes púbicos, assistência no desemprego e faz o combate à Pobreza.

A prova desta trajectória de classe é a criação de um sistema de saúde para ricos e outro para pobres. Uma escola que de pública só terá em breve o nome porque até os alunos do ensino secundário terão que pagar para a frequentar. O ensino superior está cada vez mais selectivo. Qual é o filho do operário que pode pagar alojamento, livros, transportes e propinas? Até agora havia uma bolsa, um apoio que permitia, com os esforço dos pais, complementar uma verba que cobriria – com dificuldade – os gastos da universidade. Sem a bolsa, com transportes e cantinas mais caras, qual filho de mulher-a-dias, gasolineiro ou empregado da construção civil que pode estudar? Só alguns terão dinheiro para dar uma formação superior aos seus descendentes. Na saúde, com taxas moderadoras elevadas (uma urgência no hospital pode ficar por 50 euros) e fecho de serviços, o acesso fica proibitivo aos mais pobres: a saúde também será de classe.

Cultura? Acesso a espectáculos, bens de consumo culturais como livros, apoios a manifestações dessa natureza só para quem tem dinheiro, isto é para quem faz parte da classe mais rica.

O governo pretende entregar os hospitais às Misericórdias, vender por uma bagatela as empresas públicas lucrativas, privatizar a água, a luz e o gás. Depois vem a CP e a Refer, REN, TAP, ANA, autoestradas e outras. Um dia será a vez da Segurança Social e o poder económico estará nas mãos de meia dúzia de famílias como sucedeu há bem pouco tempo. Esvazia-se o Estado, sob o pretexto de que os privados o fazem melhor e criam-se dois países: um para os que têm dinheiro e estão protegidos pelo seu poder de compra e o outro, daqueles que ficam à mercê dos donos da economia e que lhe pedem o que querem pela saúde, água, luz ou educação.

Este governo é feito de gente que nunca usou o cravo vermelho na lapela no dia 25 de Abril. Que tem sede de vingança de uma revolução que conquistou o caminho para a aproximação dos portugueses nas mais diversas formas de estar na vida. Gente que quer acabar com aquilo que tantos conquistaram antes e depois do 25 de Abril.

Francisco Fonseca, membro da classe média, em extinção.

Opinião

Barcelos Popular
06 de Dez de 2012 0

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