O Estado não é deles
A caminho de quatro décadas de regime democrático, Portugal tem assistido pacificamente à apropriação do Estado por parte dos partidos políticos saídos do golpe militar de 25 de Abril de 1974.
Se logo após esse momento o domínio pertenceu quase em absoluto ao PCP, o único verdadeiramente organizado e disseminado por todo o território, depois da consolidação democrática de 1976 foi a vez de PS e PSD, o então PPD, e, sempre que teve oportunidade, o CDS, assaltarem a máquina administrativa pública para nunca mais a largar. Essa realidade faz-se hoje sentir mais do que nunca, pois, contrariamente àquilo que muitas vezes se tenta fazer crer, o Estado paga mais generosamente aos seus empregados do que a iniciativa privada, e, mais importante ainda, não exige como esta competência e valor, pedindo como curriculum ao candidato apenas o cartão de militante. Esta verdadeira tragédia nacional, responsável pelo abandalhamento e progressiva desqualificação da administração pública, estendeu-se a todos os planos do Estado, central, regional e autárquico, e é, sem dúvida, um desincentivo à valorização pessoal, ao estudo e ao esforço individual. Entre estes, plenos de sacrifício, e uns anos de militância partidária, que escolherão os portugueses? Felizmente que muitos optam pela sua formação e valorização, acabando por construir carreiras profissionais sérias e que só a eles se devem. Mas não é menos verdade que também há muitos, conscientes do retorno que a militância iniciada nas “jotinhas” garante, que escolhem esta via para encontrar o seu lugar ao sol. E, quase sempre, conseguem-no. Numa direcção regional, num instituto, numa câmara, numa empresa municipal, seja lá onde for, haverá sempre um lugar para mais um boy ou uma girl. E assim se tem vivido alegremente no Portugal democrático.
As recentes notícias sobre as nomeações para as chefias dos serviços regionais de saúde vieram confirmar esta realidade. Crendo que a Ordem dos Médicos, ou Sindicato dos Médicos do Norte, terão algum conhecimento de causa quando afirmam não reconhecer nos escolhidos as competências necessárias ao desempenho das funções em que serão investidos, somos então levados a aceitar que tais escolhas decorreram, não dos curricula de cada um, mas antes das ligações dos envolvidos aos partidos que actualmente governam. Ou seja, uma vez mais, vê-se premiada a militância partidária em detrimento do mérito.
Alterar este estado de coisas devia ser um imperativo nacional, tão importante quanto combater o défice ou a dívida. Só assim se alcançará a moralização da vida pública, restituindo ao Estado, que é de todos nós, convém não esquecê-lo, o respeito essencial à sua autoridade.
Enquanto é tempo.
