Não brinquem com quem nada tem a perder
Mais do que nunca os portugueses estão revoltados, confusos, desorientados e divididos, e a coisa não é para menos. De facto, caminhamos a passos largos para o abismo sem que se veja a luz ao fundo do túnel como no mínimo seria espectável.
Revoltados, porque não aceitam as medidas brutais contra o seu nível de vida, já de si bastante apertado para a maioria da população. Confusos, porque não entendem como foi possível chegar-se a esta situação sem que alguém travasse esta trajectória de descalabro e sem que alguém seja verdadeiramente responsabilizado.
Desorientados, porque não sabem o que fazer à sua vida e como resolver os seus reais
problemas. Divididos, porque para isso estão a ser empurrados por medidas que este e o anterior governo lançaram e que, de facto, visam penalizar mais uma parte da população que outra.
Resultado: em vez de compreenderem este fenómeno desatam a atacar-se uns aos outros numa deriva de caça às bruxas para ver quem tem mais “privilégios”, confundindo muitas vezes direitos livremente negociados e conquistados noutros contextos com benesses que muitos se atribuíram a si mesmo e com valores escandalosos.
É com este pano de fundo resultante das medidas que o actual governo tem vindo a implementar, contrariando tudo aquilo que tinha prometido, que o país avança a passos largos para um empobrecimento generalizado que nos dizem agora ser a única solução para os problemas dos desequilíbrios da nossa economia e da nossa situação financeira.
Os portugueses tem de passar a ser muito mais pobres para resolvermos os nossos problemas, diz o actual primeiro - ministro, Passos Coelho.
Não foi isto que ele disse na campanha eleitoral, pois todos se recordam que quando lhe foi colocada a questão de cortar apenas um subsídio ele respondeu que isso era um disparate.
Passos Coelho mentiu deliberadamente aos portugueses ou então não sabia do que estava a falar, o que em qualquer dos casos é grave.
Passos Coelho, na sua ânsia de ser mais papista que o papa e de recuperar para si também o epíteto do bom aluno, não se importa de sacrificar até ao limite os portugueses impondo sacrifícios que ultrapassam os que a Troika exigia.
E é aqui que reside grande parte da indignação. Com justificação ou não, a maioria dos portugueses estava já convencida que iria ser preciso fazer sacrifícios para resolvermos os nossos desequilíbrios financeiros e económicos e por isso optaram pela mudança.
O que os portugueses não contavam foi com esta brutalidade, nomeadamente para os trabalhadores da função pública e reformados. Estamos a falar talvez em mais de 2 milhões de pessoas.
Isto foi-lhes escondido na campanha eleitoral e, insisto, não é isto que está sequer no memorando acordado com a troika.
Em vez de uma solução minimamente consensual e que no fundo em minha opinião passaria por um reajustamento mais suave mesmo que definitivo, o governo optou objectivamente pelo confronto com os portugueses.
Não nos iludamos, o país que sobreviver da actual politica deste governo, será um país diferente para pior, ou seja, menos solidário, mais desigual, mais pobre.
O ataque ao estado social, isto é, ao Serviço Nacional de Saúde, à Escola Pública e à Segurança Social, que este governo quer substancialmente alterar (e já não digo destruir), vai ditar o futuro do país ou deste governo.
O povo português vai ser chamado a defender o Portugal saído do 25 de Abril pois é isso que no fundo está em causa. Em nome da resolução dos desequilíbrios orçamental e da divida soberana o governo de Passos Coelho está a aproveitar-se para impor ao povo português uma politica neoliberal que no fundo está na génese de toda esta crise que nos abala e a grande parte da Europa e não só.
A culpa dos políticos portugueses infelizmente vai morrendo solteira, mas isso é outra história que falaremos noutra oportunidade.
Vem aí um orçamento de estado para 2012, que será um autêntico pesadelo para os portugueses por tudo que se tem ouvido falar, mesmo que ainda se consiga alterar alguma coisa.
Não estiquem demasiado a corda. Não brinquem com quem nada tem a perder.
