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O Mundo ao contrário

Opinião

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Um destes dias, na rede social facebook, circulava um vídeo e uma campanha para criminalização de dois adolescentes que queimaram um cachorro com um líquido inflamável. Não se percebe muito bem onde aconteceu, uns dizem que no Brasil, outros na América, mas mesmo assim, cento e tal mil pessoas juntavam a sua condenação ao ignóbil acto e deixavam mensagens de revolta.

Uma grande parte delas exigia uma condenação salomónica, com comentários deste tipo:

– «Cortem-lhes as mãos…»

– «Matem-nos…»

– «Queimem-nos vivos…»

Já estou habituado a ouvir isto aos balcões dos tascos e cafés, quando a notícia do dia é um tipo que violou (- Cortem-lhe a gaita…), um outro que matou (- Cortem-lhe o pescoço…), outro ainda que roubou e maltratou à pedrada uma velhinha num monte do Alentejo. (- Apedrejem-no…).

Infelizmente, este tipo de análise, podendo ser informada por algum descrédito relativamente à justiça e sua morosidade, não deixa, na minha opinião, de reflectir alguma pobreza espiritual e uma deformada consciência cívica.

A violência não se resolve com violência, e povos que procedem desta forma vivem ainda num estado de barbárie.

Assim aconteceu no Kenia, quando populares agrediram violentamente dois indivíduos que haviam roubado um saco de batatas, e não satisfeitos, com estes perfeitamente imobilizados, regaram-nos com gasolina e chegaram-lhes fogo.

O vídeo, monstruoso, e cujas imagens ficaram na minha cabeça a remoer durante dias, também circula na internet, mas não conheço nenhuma acção como aquela do pobre cachorro a exigir a criminalização dos autores.

Caso para dizer que em alguns locais do planeta a vida de um homem vale menos que a de um cão, ciente que estou de que os animais têm direitos e devem ser protegidos e respeitados.

Mas o que é verdadeiramente assustador, é que num pretenso mundo globalizado, continuemos a conviver bem ao almoço com a fome em África, a guerra em variados pontos do planeta.

Felizmente que não somos todos, que uma imensa minoria surge nas cidades a exigir mudanças e um mundo mais justo e humanista, que não esteja dependente de ratings, nem de agências, que não seja movido pela especulação financeira, pelo capitalismo selvagem.

Assim aconteceu há dias em Espanha, por ocasião do Encontro Mundial da Juventude, quando milhares saíram às ruas para contestar o patrocínio governamental à visita do Papa, que custará ao estado espanhol muitos milhões de euros.

Pediam os manifestantes um estado laico, uma melhor distribuição dos dinheiros públicos, justiça social.

Acções como estas repetem-se em várias capitais e cidades europeias. Discute-se nas praças, fazem-se «acampadas».

Em Portugal também, e até já em Barcelos, numa acção que durou poucos dias, mas que teve a sua importância para mostrar que podemos ser poucos para já, mas que seremos milhões num futuro próximo, no nosso país e em vários pontos do globo.

O agudizar das crises económicas vai certamente conduzir a um aumento da criminalidade, mas vai também fazer eclodir uma maior consciência pública, uma participação cívica intensa.

Pais, filhos, avós e netos, todos juntos numa mensagem forte de que precisamos de políticos honestos, de uma democracia mais participada, de um mundo mais solidário, que não esbanje recursos, antes promova a sua distribuição por aqueles que menos têm.

Neste processo, a Igreja católica peca todos os dias. Por omissão. Por falta de exemplo.

Não pense o leitor que não reconheço à Igreja uma dimensão social e caritativa, simplesmente me parece notório que aquilo que dá com uma mão, retira muitas vezes com a outra.

Neste mundo ao contrário, tão cheio de injustiças, é absolutamente necessário educar as novas gerações com responsabilidade, com consciência cívica, de uma forma humanista, para que não se sucedam os episódios recentes em cidades inglesas, com milhares de adolescentes em fúria nas ruas.

Em pano de fundo estará o descontentamento social, mas mais uma vez não é com violência que se resolvem os problemas, mas com tomadas de posição pacíficas, ordeiras, contestatárias e que ponham a nu as fragilidades dos sistemas.

Quanto aos que provocaram a minha revolta naquele vídeo dantesco, que são responsáveis pelas minhas insónias repetidas durante as noites, animais enfurecidos e diabólicos, espero que ardam no inferno!

– Disse, perfeitamente consciente do meu papel neste tasco imundo da vida.

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Barcelos Popular
25 de Ago de 2011 0

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