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Comemorar o quê?

No aniversário dos 83 anos (1928/2011) de elevação da cidade de Barcelos

Comemorou-se, ontem, o 83.º aniversário da elevação de Barcelos a cidade (31 de Agosto de 1928/2011). De uns tempos para cá, esta data vem sendo mais ou menos lembrada com algumas cerimónias e festejos, como se uma efeméride importante para Barcelos se tratasse.
Ora, na minha modesta opinião, pergunto: estamos a comemorar o quê?
O decreto da elevação de Barcelos a cidade foi assinado pelo Ministro da Justiça ( Decreto Lei n.º 15.929 de 31 de Agosto de 1928, publico no Diário do Governo, I Série n.º 205, quinta feira 6 de Setembro,)    do então governo saído da Revolução do 28 de Maio de 1926.
Este Ministro da Justiça - Dr. Silva Monteiro – tinha sido Juiz nesta comarca e nutria uma certa amizade por Barcelos, porque, para além das boas relações que deixou e levou de Barcelos, pelo menos, uma sua filha, era natural deste burgo.
Penso que foi esta a única razão plausível da elevação de Barcelos a cidade, tanto mais que em Barcelos ninguém estava a contar com esta decisão governamental, nem naquele tempo era um dos principais objectivos das ditas “forças vivas“, de Barcelos.
De facto, é muito raro encontrar qualquer referência da elevação de Barcelos a cidade. Encontrámos uma notícia no Aurora do Cávado nos finais do século XIX, sobre este assunto onde se confronta o nosso concelho “ que era um grande produtor agrícola e alguma indústria florescente“ com o pequeno concelho de Viana do Castelo que, anos antes, tinha sido elevada a cidade, “sendo, no entanto, esta terra (Barcelos) muito mais próspera e antiga”.
Mais tarde, uma Associação Cívica e Patriótica de Barcelos denominada também “Por Barcellos “a qual era encabeçada pelo Conde de Vilas Boas, afirmava em 1909 “que Barcelos, devido ao seu potencial agrícola tinha todo o direito de figurar como uma das terras principais de Portugal e, porque não, a sua elevação a cidade?“
Posto isto, esta questão de elevação a cidade caiu praticamente no esquecimento e se consultarmos os jornais de Barcelos desde 1909 a 1928 nenhuma referência é feita ao desejo dos barcelenses na ascensão da sua terra a cidade, nem tão pouco o livro editado em Abril de 1927 “Barcelos – Resenha Histórica, Pitoresca - Artística de J. Mancelos Sampaio e Augusto Soucasaux –aborda o assunto.
Naquela época, Barcelos tinha outras preocupações. Se nos apoiarmos nas notícias publicadas no BARCELENSE no período de 1927/1928, não há sequer uma referência ou abordagem a este tema. Fala-se na estátua de D.António Barroso, Franqueira, na publicação do testamento de Paulo Felisberto, emigrante do Brasil que faz vários legados entre os quais uma quantia avultada para a construção da nova cadeia e arranjo de edifícios antigos de Barcelos, dos estatutos das Fábricas de Fiação e Tecidos e Domenech. Para além destes e outros assuntos, vários números do mesmo Jornal viram-se para o que Barcelos já tinha perdido como foi o caso da Unidade Militar, do encerramento da Escola Superior Primária e aquilo que poderia perder com a nova reforma administrativa, que o governo queria efectuar com desintegração do concelho de Barcelos, pretendendo anexar as freguesias de Vila Cova, Perelhal, Aldreu, Fragoso, Palme e Barqueiros a Esposende, Macieira à Póvoa de Varzim, Minhotães e Negreiros a Vila Nova de Famalicão, etc.
É interessante o manifesto publicado em 13 de Agosto do ano de 1928 da Associação Comercial, assinado pelo Dr. Vieira Ramos, dizendo “BASTA, BASTA! Barcelos, esta nossa linda, importante e querida terra que se muito tem progredido nada deve aos altos poderes, mas sim à iniciativa particular, não consente que lhe usurpem nem mais um palmo de terreno que é muito seu!!! Basta de desvios,  já foi o batalhão de Infantaria que estava na nossa vila há mais de 40 anos, já foi a Escola Primária Superior, já foi o Tribunal Criminal e, agora, querem algumas das nossas freguesias“            
A indignação foi geral. Houve manifestações e várias comissões deslocaram-se a Lisboa para reivindicar o que tinham perdido e não deixar que Barcelos fosse mais prejudicado. E, numa dessas reuniões em Lisboa, foram surpreendidos com a notícia de um telegrama do Ministro da Justiça enviado ao Presidente da então Comissão Administrativa da Câmara, da elevação de Barcelos a cidade.
Foi um típico “presente envenenado“ a Barcelos. A partir daquela data, de facto, Barcelos ficou intacto com as suas freguesias, não por questões de pressão dos barcelenses, mas porque o governo de então confrontava-se com várias revoltas populares e, como é sabido, uma destas reformas levaria a muitas convulsões sociais e retiraria o apoio de grandes franjas da população ao regime. As revindicações, que eram justas no que respeitava à unidade militar, ensino e justiça, perderam-se no tempo e foram necessários mais de 30 anos para termos uma Escola Industrial e Comercial e cerca de 40 para o Liceu. Quanto aos melhoramentos esperados basta olharmos para a nossa terra. Dêem uma volta pelas Vilas vizinhas e comparem. Portanto, repito: estamos a comemorar o quê?

Opinião

Barcelos Popular
01 de Set de 2011 0

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