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Para onde caminham as condições de trabalho?

Opinião

"O desemprego, a grande ameaça dos dias de hoje, jamais se resolverá com este modelo de desenvolvimento por maior que seja a exploração de quem trabalha."

As questões laborais e da gestão dos recursos humanos sempre foram áreas que me fascinaram ou não tivesse sido eu dirigente sindical mais de 25 anos.

Por isso é natural que notícias que tenham a ver com estas áreas me chamem à atenção como foi o caso de um artigo de José Vítor Malheiros, no jornal Público, no qual o autor, a partir da situação vivida nos últimos tempos na France Telecom, onde se registaram 25 suicídios entre os seus trabalhadores em resultado das condições de trabalho existentes na empresa, nos chama a atenção para as razões que os teriam levado a um acto tão extremo, assim como ao facto por ele denunciado de que tais razões são hoje uma realidade em muitas empresas portuguesas.

Não sendo propriamente um novato nestas coisas, e tendo trabalhado durante muitos anos numa grande empresa, que entretanto passou nestes últimos 35 anos por todo o tipo de alterações (nacionalizações, fusões, reestruturações, privatizações e venda por fim a estrangeiros), sei como se pode chegar a uma situação como a que estamos a falar.

Poder-se-á dizer que o que se passou na France Telecom foi e é mais violento do que se passou na empresa onde trabalhei ou em muitas outras. Ou então que os franceses estão mal habituados. Admito que sim. No entanto, convém lembrar que para a obtenção de uma maior competitividade e flexibilidade, "em nome da salvação do país", o que se passa no interior das empresas, em muitas situações, mais não passa do que levar a exploração dos trabalhadores a níveis ainda há bem pouco tempo impensáveis. Mais, em muitos casos não foi respeitado quem durante muitos anos deu o melhor de si a essas empresas. E aí sim, foi-se longe de mais na brutalidade com que certas medidas foram implementadas, em nome de reestruturações que eram necessárias.

Segundo o artigo, a prática corrente das condições de trabalho e de gestão de recursos humanos na France Telecom assentava no facto de trabalhadores serem obrigados a mudar constantemente de posto de trabalho e de funções, em nome da "flexibilidade". Foram impostos objectivos irrealistas; foram destruídas equipas de trabalho e o espírito de equipa, sempre em nome da "adaptabilidade"; esquemas de "auto-avaliação" que apenas servem para intimidar os trabalhadores, para os obrigar a reconhecer que falharam e a aceitar penalizações; pessoas mantidas isoladas por medidas de "mobilidade" que destroem as relações entre trabalhadores, etc.

Enfim!...porque será que tudo isto não me parece assim tão estranho?

O medo, o isolamento, a humilhação, a perda de confiança, a ausência de solidariedade, a perda do gosto pelo trabalho, a perda da auto-estima, de sentido e de identidade, que tem levado muitos dos trabalhadores da France Telecom a pôr fim à sua vida, tem que se transformar rapidamente num alerta para o que aí está para vir de pior, se não formos capazes de virar a situação.

Ao discurso da aposta no capital humano, da promoção da criatividade e da prioridade à inovação, o que se esconde é uma prática esclavagista, desumana, repressiva, atentatória dos direitos, da liberdade e do espírito humano.

Cada vez mais as empresas são exemplo de uma prática ditatorial, esmagadora das liberdades, da crítica, da expressão dos indivíduos que, se acontecesse na rua, todos julgaríamos inaceitáveis. Dentro da empresa, em nome da competitividade ou por medo do desemprego, aceitamos o fascismo (Fim de citação do referido artigo).

A realidade é, em grande parte, esta que acabo de citar e que se tem agravado com a crise. A pretexto da crise e da salvaguarda do emprego muitas empresas não têm escrúpulos e aproveitam-se da situação para explorarem os seus trabalhadores, exigindo cada vez mais destes, sem as respectivas contrapartidas que em muitos casos passa pelo pagamento do salário atempadamente.

O desemprego, a grande ameaça dos dias de hoje, jamais se resolverá com este modelo de desenvolvimento por maior que seja a exploração de quem trabalha.

A grande questão que hoje se coloca à sociedade é sabermos se neste contexto de globalização e com o avanço do desenvolvimento tecnológico e científico as mais-valias serão para engordar os grandes grupos económicos e servir a especulação financeira ou se, pelo contrário, serão para se distribuir mais justamente por quem trabalha.

O dilema do futuro é este. Esperemos que vença a segunda opção na certeza que vai ser preciso muita luta

Opinião

Barcelos Popular
17 de Dez de 2009 0

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