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Sexagenário encontrou no artesanato um gosto e uma ocupação
A arte popular de Messias Alves

Sexagenário Messias Alves encontrou no artesanato um gosto e uma ocupação.

As mãos que durante mais de quarenta anos manobraram portentosas máquinas de terraplanagem são as mesmas mãos que de há cinco anos para cá executam minuciosas peças de artesanato. As mãos – essas incansáveis mãos – pertencem a Messias Nogueira Alves, de 69 anos, residente em Courel, um homem que, depois de viúvo e reformado, descobriu ter vocação e jeito para os trabalhos manuais. Prestes a completar 70 anos, no próximo mês, o sexagenário diz que não tem paciência para estar parado, que gosta de tratar dos animais, fazer caminhadas logo pela manhã e, nos tempos livres, aprendeu a dar uma nova vida a material usado, como rolhas, pedaços de madeira ou molas da roupa. "Descobri o meu encanto", refere com orgulho, enquanto mostra ao Barcelos Popular as dezenas de peças que preenchem o seu humilde ateliê.

O gosto pelo artesanato surgiu casualmente, pouco tempo após a morte da esposa, Maria Gomes Braga. A primeira peça que fez foi uma ventoinha, em forma de avião, que ainda hoje mantém no telhado de sua casa, na rua Caminhos de Santiago. Entusiasmado pela arte, transformou depois várias pipas de vinho em bares. Dois vendeu para Inglaterra. "Vieram aqui buscá-los de propósito", afiança. Do espólio artístico fazem parte ainda miniaturas de barcos, andores, moinhos de vento, aviões e utensílios rurais, assim como elementos decorativos como candeeiros, quadros para colocar fotografias, crucifixos, entre outras construções.

"Aqui não há catálogos"

Quando questionado de onde vem a inspiração e criatividade, Messias Alves responde prontamente e com todo o rigor verbal: "Vem tudo da minha cabeça, aqui não há catálogos!". No início, quando a arte era ainda uma novidade, chegou até a pôr-se a pé de noite para trabalhar. "Estava na cama, imaginava alguma coisa, levantava-me, fossem três ou quatro horas da manhã, não importava, o que não podia era deixar passar a ideia". Hoje já encara o novo ofício com outra naturalidade, mas com a mesma energia e o mesmo dinamismo: "Sou sincero, gosto muito disto, do sossego e da satisfação que me dá fazer as minhas coisas". Calejadas mas ágeis, as mãos de Messias Alves não se cansam e praticamente todos os dias dedica parte do tempo ao artesanato. No Inverno, "o frio não ajuda, a cola não pega tão bem". "Não há nada como o Verão para trabalhar. O material adere muito melhor", explica. Os mundos religioso e náutico parecem ser as principais temáticas exploradas pelo artesão, já que são frequentes peças de cariz sagrado (como andores, crucifixos, imagens de santos) e diversos tipos e tamanhos de barcos.

Referência nos Caminhos de Santiago

Orgulho de toda a família e da população de Courel, Messias Alves é também uma referência para os peregrinos de Santiago, que durante todo o ano passam à porta da casa do artesão. Devoto do Apóstolo, há dois anos construiu numa pipa de vinho uma espécie de nicho de alminhas, que colocou no jardim, junto à estrada. Os caminheiros param, apreciam e deixam esmolas. "Mas não é para mim, o que cai ali é sagrado, é para entregar à Igreja", esclarece. Por ali, diz, passa "gente de todas as nações", mais "nos meses de Verão, que é quando o tempo ajuda". São o seu principal público, a par das crianças das escolas que de vez em quando aparecem em visita para ver o que o sexagenário faz. Os peregrinos geralmente chegam cansados e aproveitam a paragem para descomprimir e retemperar forças. "Pedem-se água e eu dou. Entram e gostam de ver o que faço, dão-me os parabéns e tiram muitas fotografias". E compram? "Não, eu percebo, têm uma longa caminhada pela frente, já têm tanta coisa para levar às costas. Mas dizem que um dia voltam para levar a peça que mais gostaram", responde. O facto de não fazer comércio com as suas produções também não é preocupação para Messias Alves. "Não faço isto pelo dinheiro, faço porque gosto e para me entreter e ocupar o tempo. Há peças que não vendo a qualquer preço, prefiro tê-las aqui para quem quiser ver".

Vida de luta e trabalho

Transmontano de nascença, barcelense de afinidade e adopção, Messias Alves nasceu no dia 19 de Fevereiro de 1941, na freguesia de Fontes, concelho de Santa Marta de Penaguião, distrito de Vila Real. Abandonou a escola quando ainda mal sabia escrever o nome e foi trabalhar com o pai para as minas de Moncorvo, como ajudante de máquinas, tinha apenas nove anos de idade. Daí passou para manobrador na construção de várias barragens da região, como Miranda do Douro, Picote, Bemposta, Carrapatelo e Tabuaço.

Aos 22 anos, pouco tempo depois do início da Guerra Colonial, Messias Alves foi chamado pelo Estado português para cumprir o então obrigatório serviço militar. Esteve cinco anos na tropa, dois dos quais na antiga província ultramarina de Guiné-Bissau. Desse tempo recorda cenários de guerra e sofrimento. "Vivíamos todos os dias debaixo de fogo", lembra, sem ponta de saudade.

Regressado a Portugal e já funcionário na refinaria da SACOR, em Leça da Palmeira, onde esteve a trabalhar durante 26 anos, conheceu a esposa, natural de Courel e na altura doméstica na Maia. Depois do casamento, viveram em Vila Nova de Famalicão, em S. Cosme do Vale, e em 1974 mudaram-se definitivamente para a freguesia barcelense. Reformado desde 2002 por invalidez, devido a problemas na coluna, Messias Alves encontrou no artesanato uma forma de ocupar o tempo e "de se entreter". Pai de sete filhos, vive com três ainda solteiros. "Uma vida dura, mas feliz", remata a conversa.

Diversidade de artesanato

Nem só de olaria vive o artesanato barcelense. Se é certo que a arte de trabalhar o barro é a sua referência maior, também é certo que é na diversidade que reside a riqueza do artesanato local, que continua a fazer desta terra lugar de criação e de artistas. No concelho estão identificados mais de 150 artesãos das mais variadas modalidades. Grande parte dedica-se à cerâmica e ao distinto figurado, mas sobressaem também os trabalhos em madeira, os bordados, a tecelagem, e o ferro, derivados e latoaria, entre outros com menor representação mas de igual valor. Todos sem distinção, e em conjunto, são elementos estruturantes que garantem a Barcelos o epíteto de "Rainha do Artesanato".

Entre mais de uma centena de homens e mulheres que dedicam ao artesanato a profissão ou a ocupação dos tempos livres, Messias Alves é um dos mais recentes artesãos de uma extensa lista e talvez por isso o seu trabalho ainda não seja muito conhecido. Recentemente integrou exposições conjuntas promovidas pelo Posto de Turismo de Barcelos e marcou presença numa mostra sobre o artesanato de Courel, que teve lugar na sede da Junta de Freguesia.

Autor: Filipa Oliveira
Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2011 - 15:27:29

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