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Arte "Côta"
Um mundo fantástico

O clã dos Côto já leva três gerações dedicadas à arte popular.

Os olhos de Júlia emudecem-se quando se fala no futuro da arte “Côta”. Na linhagem, foi a única a dar continuidade à tradição iniciada, no século XIX, pelo avô Domingos, que muitos acreditam ter sido o autor do primeiro exemplar do afamado Galo de Barcelos. Mulher de emoções fáceis, Júlia, de 71 anos, lamenta não ver na família quem lhe herde a arte e quem imortalize em barro o nome dos “Côtos”. “Tenho muita pena por não ter quem continue com isto, mas o que é que eu vou fazer?!”, interroga-se.
Dos sete filhos, João “tinha umas mãos de prata, mas emigrou para o estrangeiro à procura de uma vida melhor” – explica – “porque, hoje em dia, o artesanato não dá para viver”. “Sinto-me muito triste por não o ter na minha companhia…”, acrescenta. Também os netos “têm seguido a vida deles, não querem saber disto para nada…”, lastima. “Penso que, morrendo eu, as minhas peças acabam”, analisa friamente.

Seis décadas entre o barro
Júlia da Rocha Fernandes de Sousa, vulgo Júlia “Côta”, nasceu no seio de uma das famílias mais conceituadas do artesanato regional. Iniciou-se nas lides da cerâmica em tenra idade. “Comecei a estragar barro aos 9 anos”, relembra. Dos oito filhos de Rosa “Côta” – uma das mais importantes artesãs nacionais e das que mais enobreceu a arte do figurado barcelense – Júlia era, já na altura, quem mais talento demonstrava para a arte. Começou por ajudar a moldar alguns acrescentos, como sapatos ou corninhos, para as peças da mãe. Mais tarde, já depois de casada, trabalhou durante um ano numa fábrica, onde se dedicava à pintura de galos. Entretanto, os pais convidaram-na para trabalhar com eles: “Ao início pagavam-me 15 tostões à hora, mas depois, como viram que eu tinha muito jeito para aquilo, dobraram-me o dinheiro. O trabalho rendia-me tanto que me deram sociedade”, lembra orgulhosa. O choque aconteceu quando a mãe Rosa faleceu e Júlia teve que tomar conta da actividade sozinha. “Foi um grande sacrifício, chorei e sofri muito, porque tudo me lembrava dela…”, refere. Religiosa assumida, a artesã diz que foi Deus que a iluminou e lhe deu forças para continuar com o encargo. “Era a minha missão”, considera.
Já lá vão mais de sessenta anos a trabalhar no barro. Mas Júlia não se sente cansada. Quer continuar a “acarinhar” o barro até que as mãos já não o permitam mais. Não consegue estar muito tempo sem criar, sem bulir no barro: “Estive muito doente ultimamente, como não podia vir para aqui [atelier], até me doía a alma, menina!”. Idealmente, o seu dia-a-dia tem que ser passado na mesa de trabalho, pois é onde se diz “sentir bem”. Com uma vivacidade notável para os seus 71 anos, a barrista continua a marcar presença nas feiras de artesanato. Ainda este fim-de-semana esteve presente na de Pombal, onde faz questão de participar pela estima que tem às pessoas que organizam o certame.

Mundo fantástico, alegre e colorido
Júlia “Côta” desenvolveu um estilo de figurado muito particular, dando corpo a um “mundo fantástico, alegre e colorido”, traços que caracterizam precisamente a sua personalidade. Diz ser uma mulher “autêntica, divertida e aberta”.
A barrista, natural de Galegos Santa Maria, mas a residir em Manhente há 33 anos, cria figuras variadas, mas as bonecas grandes são as suas preferidas. “Adoro fazê-las e pintá-las, nunca faço uma igual à outra”. Umas barrigudas, outras nem tanto, as bonecas são a sua imagem de marca. A que mais gozo lhe deu fazer e que não vendia por dinheiro algum é a “Boneca Peixeira”, criada há já sete anos, com cerca de meio metro de altura. “Nunca mais fiz outra igual”. Mas porquê? “Não sei, não sei explicar, a verdade é que nunca consegui, vou para a mesa de trabalho e o que sair, sai”, explica. Mas nem só de bonecas vive Júlia: galos, galinhas, diabos, bandas de música, santos populares, deuses, cabeçudos, junta de bois, casal de noivos, entre outras, também fazem parte do vasto espólio da ceramista.
Analfabeta mas de uma imaginação prodigiosa, Júlia aprendeu a assinar as suas peças “com uma senhora de Barcelos. “Mal feito, mas vou fazendo”, afirma enquanto pega na esferográfica e rabisca as letras JC.

 

O clã "Côto"

Domingos "Côto"
João Domingos da Rocha, comummente chamado por Domingos “Côto”, foi um dos artesãos barcelenses mais conceituados dos finais do século XIX e inícios do século XX. Nascido em 1877, em Galegos Santa Maria, a ele se atribui a elaboração do primeiro exemplar do célebre Galo de Barcelos, embora a teoria não seja unanimemente aceite. Também as famílias “Mistério” e “Baraças” reivindicam essa paternidade.
Filho de João Baptista da Rocha e de Ana da Rocha, Domingos “Côto” iniciou-se cedo na arte da olaria e do figurado. Aos 21 anos, casou com Emília Maria de Faria, com quem teve oito filhos. Rosa, João e António “Côto” seguiram-lhes as pisadas.  Este grande nome do artesanato barcelense morreu, aos 71 anos, a 1 de Maio de 1959.








Rosa "Côto"

Rosa Faria da Rocha, vulgo Rosa “Côta”, nasceu em Galegos Santa Maria, a 24 de Maio de 1901. Filha do conceituado Domingos “Côto”, cedo se deixou seduzir pelos encantos do barro. Inicialmente, o figurado de Rosa “Côta” pautava-se pela simplicidade, representando quadros usuais do dia-a-dia. Foram, porém, os “gigantones” e os “taralhotos” – peças com certa excentricidade – que a celebrizaram e lhe deram reconhecimento público.
A sua arte valeu-lhe várias distinções em feiras de artesanato por todo o país. Faleceu, aos 81 anos, a 30 de Janeiro de 1983. Legou para a eternidade um património artístico memorável e contribuiu sobremaneira para o simbolismo da arte popular barcelense.









João "Côto"

Filho de Domingos “Côto”, João Faria da Rocha nasceu a 10 de Agosto de 1912, em Galegos Santa Maria. A arte de moldar o barro herdou-a dos seus pais. Aos 15 anos, tornou-se rodista, ofício que exerceu durante vários anos. Começou por fazer peças de cariz utilitário, como era tradição na altura, aventurando-se, mais tarde, na feitura de galos. Em 1976, passou a dedicar-se ao figurado, modelando situações do quotidiano, reflexo da sua simples forma de viver.
As alminhas, os apitos e as juntas de bois fizeram de João “Côto” um dos artesãos mais distintos da sua geração. Faleceu a 19 de Novembro de 2001, deixando para a posteridade um importante legado artesanal.

 








António "Côto"

António Faria da Rocha, popularmente conhecido como António “Côto”, nasceu no dia 15 de Maio de 1913, na freguesia de Galegos Santa Maria. Tal como os irmãos, herdou o talento dos pais, iniciando-se nestas lides em tenra idade. Enquanto principiante da arte, ajudava na modelação de louça à roda e de pequenas peças de figurado. Infusas, cântaros e canecas são alguns exemplos característicos da olaria rústica, o tipo de artesanato que melhor fazia. Casado com Maria “Sineta” – ilustre artista do panorama artesanal do concelho –, António “Côto” também ajudava a esposa na produção de figurado. Mais tarde, deu forma a uma série de criações próprias ao nível do figurado. Sucumbiu em pleno brotar de Outono, a 24 de Setembro de 2000.








Analfabeta mas de uma imaginação prodigiosa, Júlia “Côta” (re)cria o mundo ao seu jeito com pedaços de barro há mais de sessenta anos. O Barcelos Popular esteve no “mundo fantástico” da barrista de Manhente.







É dos apelidos mais consagrados da arte popular local e nacional. A tradição familiar já se arrasta há três gerações, podendo estar em risco de extinção. Dos oito filhos de Rosa “Côta”, apenas Júlia deu seguimento à arte iniciada pelo avô Domingos, a quem muitos atribuem a paternidade do Galo de Barcelos. Mulher de emoções fáceis, Júlia só lamenta não ver na família quem perpetue em barro o apelido dos “Côtos”.



Arte de Júlia "Côta" na Sala Gótica

Mais de sessenta peças da autoria de Júlia “Côta” estão patentes ao público na Sala Gótica dos Paços do Concelho até ao próximo dia 20 de Outubro. As bonecas – algumas delas bem barrigudas – de sobrancelhas carregadas, com grandes colares e brincos compridos são a imagem de marca da barrista.
Às emblemáticas bonecas juntam-se os diabos vermelhos com dentes de ouro, os galos ímpares na forma, nas cores e nos motivos, os santos populares, os homens-assobio, os nichos de alminhas e os jardins-de-mijões, entre outros trabalhos. “Muito figurado sortido”, caracteriza a própria, que não pôde estar presente na inauguração da mostra, que decorreu no dia 28 de Setembro, por motivos de doença. “Tive tanta pena de não ir, menina…”, justifica entristecida.
Inserida no ciclo de exposições de valorização do artesanato, “O mundo fantástico de Júlia Côta” apresenta ao público uma arte pautada pela imaginação, pelo jogo de cores garridas e pela autenticidade. A artesã confere ao barro uma vivacidade e uma expressividade notável, só acessível aos verdadeiros artistas. Uma mostra a não perder. A entrada é livre.

Autor: Filipa Oliveira
Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007 - 18:24:09

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