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António Fernandes de Castro
Regedor é o 14º mais velho do mundo

Tem nove filhos (um já morreu), 24 netos, 26 bisnetos e dois trinetos.

Natural de Durrães, António Fernandes de Castro viveu em três séculos e fez 110 anos no domingo, dia de Reis e (na freguesia) da Festa do Menino, com procissão e foguetório alusivo. Durrães celebrou a dobrar. Cantaram os parabéns a “ti António” mais de quarenta familiares, o autarca Delfim Machado e o padre José Lima, perante uma mesa farta e prendas após mais de quarenta mil dias vividos. Até o neto Luís fez anos no mesmo dia. Bairrista, António Castro foi juiz de paz, regedor e integrou a Junta de Freguesia, direcção da Casa do Povo e a Comissão Fabriqueira. É o quinto português mais velho, sendo entre os homens só superado por Augusto Moreira, de Grijó, com 111 anos. O “senhor regedor” entra assim para a lista dos supercentenários, tornando-se o quarto homem mais velho da Europa e o décimo do mundo, segundo a associação norte-americana Gerentology Research Group (GRG), que integra ainda no rol 65 mulheres. O quadro inclui apenas os identificados, daí é crível haver mais decanos.
“Não contava chegar a esta idade”, admira-se António Castro, de olhos azuis intensos, bigode raso e ar calmo. Pede como desejo “fazer outro ano”. As crianças não o chamam de bisavô, mas “o avozinho”. “É como um corvo branco, raro”, define a nora Conceição Novais Costa, que a par da filha Carmo cuidam diariamente desta lenda vida. “Agora ajudamos, a seguir somos nós a precisar de ajuda”, brincam. “O meu pai sempre foi muito saudável, raramente foi ao médico, tem uma genética pouco vulgar”, acrescentou o filho mais velho, Manuel, de 76 anos. Para Delfim Machado, “a presença e saúde do sr. António são uma vitória e verdadeiro orgulho”. As pernas já não ajudam o “senhor regedor” a ir à missa dominical e ao ‘Café Morgado’ rever amigos ou tomar o cálice de vinho do Porto. Tem cuidados na alimentação (adora fruta) e trocou há meses o vinho por sumo e água. Pretere a TV à rádio Renascença, com a qual reza o terço, para “dormir descansado”. É um homem de fé. Admira muito o antigo pároco José Martins Mendes, ainda vivo, e foi várias vezes a Fátima.

Ganhou a vida nos bacelos de videiras
Conta o filho Joaquim, 70 anos, que “aos 90 e tais” António cortava cavacos à machadada e, aos 105, “ainda andava”. Talvez a invulgar longevidade física e mental de “ti António”, naturalmente reduzida desde os 100 anos, se deva ao carinho dos familiares. É à volta do seu cadeirão da sala que os netos ouvem as histórias e, da janela ao lado, se avista o vale do Neiva, onde António tinha viveiros de bacelos [videira], o seu ganha-pão. Joaquim compensa o cansaço de ouvidos e memória do pai e explica que se vendia bacelos em muitas feiras, de Braga a Cerveira. António recebia até “gente fidalga” como Norton de Matos e o conselheiro Savedra, então juiz do Supremo Tribunal de Lisboa. O supercentenário sublinha: “Almoçava no ‘Encanada’, em Ponte de Lima. E ia a Valença... Até no dia do casamento tive clientes das videiras. Ai que tempos que vivia e nunca mais voltam”. Na altura, o sogro ficou admirado com o negócio, aprendeu a enxertar e pagou todas as dívidas. Já a esposa de António Castro vendia cadeiras na feira de Viana do Castelo, feitas pelos filhos.
Como líder de Junta (1938-40), “sempre PSD, puxado ao CDS”, António recusou partilhas viciadas de terras e refez a via principal do Fojo (“o Tone Moleiro dava merenda aos trabalhadores, eu dava o vinho”). Criou ainda a primeira escola da freguesia, evitando as idas das crianças a Gândara, na vizinha Quintiães. “Ia-se de pés descalços em manhãs de geada e a saltar o rio, uma vez caiu-me o soco e foi rio abaixo”. Pela comissão fabriqueira ficou ligado à reconstrução da igreja paroquial. Na direcção da Casa do Povo, ajudou a fixar um médico e reunir “as gentes” em torno de rádio, jornais, teatro, jogos típicos e, depois, televisão – “quando chegou, havia enchentes ao fim-de-semana”.

“Protegi os pobres”
Mas foi como regedor (1943-76) que António Castro mais se destacou. Podia entrar em domicílios até anoitecer e prender quem infringisse regras da Nação. Tal nunca sucedeu: um assaltante fugiu-lhe pela janela; e ignorou policiar contrabando a quem pegava para matar a fome aos filhos. Em época de racionamento, os lavradores apresentavam o que colhiam, havia ração individual controlada na padaria e quem roubasse pão era imediatamente preso. “Protegi os pobres. Os [fiscais] de Barcelos eram comedores. Recebiam recolhas dos regedores e vendiam por grosso. Nunca fui burro, nunca lhes mandei nada. Ia tirar o milho e pão às pessoas, matar à fome os seus filhos? Toda a vida lidei com essas coisas e não tenho remorsos de nada, nada, nada!”, referiu, na obra evocativa da Assembleia de Freguesia de Durrães, quando fez 100 anos. Daí ser conhecido por “bom regedor”. E acentuou: “Perdia dias inteiros, deixando de fazer o meu trabalho, e nunca ganhei um tostão. Se fosse como certos autarcas de hoje punha-me rico”.
Filho de Joaquim Castro e Maria Peixoto, teve seis irmãos e casou a 12 de Dezembro de 1925 com Antónia Costa Maciel, falecida há 23 anos. “Havia muitos marotos, eu também era. Tive várias namoradas, mas só uma mulher”. Às portas da República, lembra-se de D. Manuel II e da rainha D. Amélia correrem o país, inclusive Durrães. “Foi em Novembro de 1908. Pararam na Ponte Seca e almoçaram no comboio”. Outra ponte da freguesia foi depois alvo de bomba e demorou a consertar, “ia-se a pé para o comboio do noutro lado”. A época era agitada. Ao grito “Viva a liberdade” corria-se à janela a ver quem ia preso. Havia “pendências pela honra”, o ofendido podia exigir reparação pelas armas. Para António Castro, Afonso Costa foi então o pior político, “um maçónico”, queria eliminar o catolicismo em duas gerações. O padre e o conselheiro de Durrães e o médico de Barcelos “fugiram, senão morriam”. “Foi a desgraça de 1910 a 1926! Eram greves, ninguém trabalhava, professores não iam à escola. Estava tudo abandonado, que miséria”, recorda António.

Irmão Manuel lutou na I Guerra Mundial
O seu irmão Manuel Castro lutou na I Guerra Mundial, em La Lis, na França, cujo caso originou o livro “Grande Guerra – Diário Poético de um Combatente” (2004). “Foi preso e dado como desaparecido [em 1918], até termos o seu postal pela Cruz Vermelha, nem havia correio. Mas fim da guerra, alegria na terra. Fiz romaria de joelhos ao Senhor do Lírio”. Em simultâneo surgiu a peste bubónica, “dizia-se que vinha dos cheiros dos campos de concentração, milhares ficavam a apodrecer, só se via botas e ossos”. Em Durrães cercaram-se vias e a igreja. “Morria-se em cinco dias. Nem tocavam sinos, senão tocava-se sempre. Raparigas de 15 a 25 anos era uma limpeza!”. Na II Guerra Mundial, o regedor deu guarida e alimento a guardas que zelavam pela Ponte Seca não ser dinamitada por alemães. E saiu o desabafo: “Em 1914 estava o mundo sossegadinho, veio a guerra e foi a miséria. Chegou-se a 1940 e foi outra miséria. Ai tempos desgraçados, que nunca mais voltem. Agora está nisto há anos, veremos se não vem outra, agora irá tudo de vez”.
Diz que Salazar “endireitou” Portugal (“as taxas também eram altas”), mas “estragou” ao impedir de emigrar. O ancião de Barcelos recebeu mal o 25 de Abril, “fugiu-nos o ouro”, porém aceitá-lo-ia mais tarde, porque “a mentalidade abriu-se”. Viu um automóvel pela primeira vez nos anos 20, contudo não seguiu a ida à Lua e não quer saber de futebol ou tecnologias como telemóvel ou computador. “Isto agora está-se no céu, um mimo, estas reformas... O que a gente passou. Os pobres batiam à porta, não se podia dar a todos o ‘bocadinho de pão pelas alminhas’. Hoje não aparece ninguém cá. Por esse mundo fora... sabe-o Deus.”

OS MAIS VELHOS DO MUNDO
112 anos e 110 dias – Tomoji Tanabe, Japão
111 anos e 214 dias – Henry Allingham, Inglaterra
111 anos e 214 dias – George Francis, Califórnia (EUA)
111 anos e 107 dias – Walter Bruening, Massachussets (EUA)
111 anos e 092 dias – Augusto Oliveira, Grijó (Portugal)
111 anos e 085 dias – Walter Seward, Nova Jersey (EUA)
110 anos e 262 dias – Jiroemon Kimura, Japão
110 anos e 157 dias – Kiyoshi Igarashi, Japão
110 anos e 155 dias – Aarne Arvonen, Finlândia
110 anos e ??? dias – Masatake Kinoshita, Japão
110 anos e ??? dias – Louis de Cazenave, França
110 anos e ??? dias – Harvey Hite, EUA
110 anos e ??? dias – Lazare Ponticelli, França
110 anos e 004 dias – António Castro, Durrães (Portugal)

www.grg.org/Adams/E.HTM


António Fernandes de Castro é a terceira pessoa portuguesa mais velha, após Maria de Jesus, de 114 anos, e Augusto Moreira de Oliveira, de 111, pois Maria José Felícia Marques, faleceu no passado dia 3 de Janeiro com 111 anos, em Massachusetts, EUA. Na Europa será o sexto homem decano e, no mundo, 14.º. No global, entrará a 75.ª a 85.ª posição, pois há casos em acção de validação, explicou o perito Luis Prista Lucas, da GRG, que vai requisitar ao “bom regedor” cópias de certidões de baptismo, casamento e nascimento dos filhos, para certificar o nascimento em 1898

Autor: Nuno Passos
Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2008 - 17:30:00

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