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Faltam condições nas sedes de Junta
Presidentes "despacham" em casa e em garagens

Há presidentes de Junta que não têm as mínimas condições para trabalhar.

É sobre uma mesa tipo campismo e na garagem de casa que o autarca de Mariz recebe munícipes. O quadro com a foto do Presidente da República e as bandeiras nacional e da freguesia tentam dar "alguma dignidade à actividade e a imagem de local público" à garagem, que como é normal está por rebocar e guarda arrumos, roupa a secar, prateleira de batatas, máquina de lavar, motorizada... "Não tenho mais onde guardar os documentos da Junta, estão em caixotes e mobília que trouxe da escola, como a secretária da professora. Os colegas de executivo têm de levar pastas para casa", frisa Domingos Araújo.

Acrescenta que o tesoureiro e secretário por vezes esperam que ele chegue para trabalharem, por a casa ser sua. Já atendeu pessoas "com a mulher a partir lenha atrás, para o fogão". "Alguns não se sentem a vontade, mas dou sempre o meu melhor. Até deixo o carro à chuva ou peço ao vizinho para guardá-lo", afirma o socialista. Despesas como luz e limpeza estão a seu cargo. Há seis anos deu uma reportagem idêntica à TV, logo "está tudo na mesma" e "não adianta alternativa" pois o edifício da sede de Junta está em conclusão.

O empreiteiro começou essa obra em 2004 e faliu há anos. Araújo quer que a nova Câmara resolva a intervenção rápido, "talvez por adjudicação directa em vez de concurso". "Quanto mais demorar, mais gastará a reparar o novo edifício, que tem infiltrações, piso degradado e falta rever a pintura e serralharia." Realça que Mariz "precisa há muito que estar a par" das outras freguesias, com um imóvel para servir também eventos culturais e recreativos, sediar associações, ter Internet grátis, ala de exposição, auditório multiusos.

21 freguesias sem sede definitiva

O BP contabilizou um quarto das freguesias de Barcelos em sede provisória. A maioria é PSD (16, contra seis PS), rural e com poucos habitantes. Há casos de instalações na casa do presidente (cave, garagem), cozinha particular, moradia privada, sala paroquial, antigo posto de leite e em escolas em ruína, sem segurança nem manutenção. Junta-se as autarquias de Feitos, Cristelo, Grimancelos e Midões, em imóvel próprio mas por remodelar. Em Moure falta a Câmara passar a posse da antiga escola à Junta. Por vezes as reuniões de Assembleia de Freguesia (AF) são, à falta de melhor, em salões paroquiais, levando cidadãos a questionar se o Estado é laico.

A anterior Câmara, liderada por Fernando Reis, prometeu instalar todas as sedes de Junta até 2009, errando claramente a meta. E a rentabilização de escolas primárias, fechadas face à fraca natalidade, até solucionou certas situações. O novo executivo de Miguel Costa Gomes quer dar prioridade ao tema e está a reunir com os autarcas, cada vez mais pressionados pelas populações. Ao que se apurou, quer adquirir terrenos e fazer as restantes obras no âmbito das parcerias público-privadas, abdicando de alguns complexos desportivos. Deve ainda criar um modelo-base para edifícios ainda sem projecto, acelerando o processo. O BP confrontou a edilidade sobre o que falta fazer e se conclui tudo este mandato, até 2013, mas não obteve resposta.

O BP correu o mapa e contactou os autarcas. A Junta de Aguiar é na cave da vivenda do presidente, tal como em Quintiães, e sonha-se passar para um edifício de raíz ao pé do cemitério. A sede de Aborim é no imóvel dos ex-operários da CP, alugado pela Refer; deseja-se nova casa no terreno ao lado, com cave e rés-do-chão. Em Cossourado "mora" no antigo posto de leite; quer-se recuperar um imóvel junto à igreja. Em Couto atende-se nos baixos da casa do pai da autarca; há projecto para a sede num terreno central adquirido pela Câmara.

Vila Cova, terceira maior em área das 89 freguesias, ficou desde 1994 ao mês passado com a Junta num canto da Casa do Povo, "a sala de espera era a rua". Está no piso térreo de uma casa restaurada alugado a 250 euros/mês, água e luz incluídos. As condições são boas: sala de arquivo, gabinete do presidente, ala de atendimento, quatro computadores, WC. O autarca Celestino Costa buscou vários terrenos centrais para a sede definitiva, mas ainda não houve acordo.

Monte de Fralães é a aldeia menos habitada e a segunda mais pequena. O autarca Luís Filipe Silva tem projecto para os 400 metros quadrados junto à rua da Granja, que deve rondar 150 mil euros, havendo ja 27 mil da DGAL. A antiga escola primária serve de poiso temporário da Junta (foto da página 3), onde também decorre o magusto ou cursos de música e de Novas Oportunidades. Mas o local isolado e mal iluminado "dá pouca segurança" e "não convida" às reuniões de AF.

A Junta de Barqueiros é em meros oito metros quadrados do salão paroquial; acredita-se que a construção da futura sede da sexta maior freguesia barcelense inicie este ano, frente ao cemitério. "O Presidente da República tem razão. Haveria mais desenvolvimento com menos freguesias. Há juntas que não têm estrutura nem capacidade de manutenção", admitiu o autarca Agostinho Pires.

O edifício-sede de Vila Boa deve estar pronto no Verão; para já remedeia-se num recanto cedido no salão paroquial. O de Fornelos, atrás do cemitério, deve findar em Julho, culminando 12 anos de renda numa casa privada, onde a presença de dez munícipes "é uma invasão". A sede de Adães, em construção, custa 750 mil euros e deve abrir em 2011, com capela mortuária e salão. Em Remelhe atende-se há 12 anos numa cozinha, "arrendada por 17 contos", enquanto se espera o retomar das obras da futura sede, que se correr bem terminam este ano.

Grimancelos aguarda a concretização do plano aprovado desde 2005, frente à igreja. Gamil tem projecto aprovado para a Av. Central, falta luz verde; a sede temporária é o escritório do presidente Armindo Silva: "As pessoas até são melhor atendidas, estou quase em permanência". Em Góios, enquanto não se constrói a valência ao lado do campo de futebol, o público é atendido num imóvel alugado pela igreja. O poder em Bastuço S. João é numa saleta alugada pela paróquia e, em Faria, no edifício do jardim-de-infância.

Fernando Silva, de Bastuço Sto. Estêvão, brincou que a sede às vezes é no seu próprio carro: "Este cargo não tem hora, ligam-me às 7h, vêm à minha casa à meia-noite...". Nos Feitos, a casa doada à escola reverteu para a Junta com a construção do novo estabelecimento escolar. Alvelos, a oitava freguesia mais populosa, aguarda adjudicação das obras na velha escola. Quanto a Pedra Furada, a Junta fixa-se há duas décadas num espaço cedido pela Casa do Povo, cujo registo de propriedade "é desconhecido". A saída da extensão de saúde anexa para Macieira de Rates liberta área para outras valências.

Autor: Nuno Passos
Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010 - 11:59:04

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