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A artista barcelense faleceu há 30 anos
A herança de Rosa Ramalho

A homenagem a Rosa Ramalho no ano em que se assinala o 30º aniversário da sua morte.

Rosa Ramalho – “RR”, como assinava os seus bonecos de barro – foi descoberta para o mundo da arte tarde demais. Nascida no meio da pobreza e da modéstia, sem nunca ter ido à escola, só viu a fama bater-lhe à porta perto dos 70 anos. Nem assim perdeu os hábitos de mulher simples, trabalhadora, afoita, cheia de sentido prático, embora também fantasista.
A imaginação e a inocência da maneira de trabalhar o barro e o modo de gizar as figuras -  prazerosas para ela, bizarras para os outros -, fizeram de Rosa Ramalho ícone de Barcelos e de Portugal. O tempo tratou do resto: eternizá-la para sempre na memória de todos. Felizmente que novos barristas vão surgindo no universo do artesanato português, mas que não ofuscam o nome da artista barcelense.

O nome e o génio
Carrega o apelido de peso da avó Rosa desde menina. Da consagrada artista barcelense, herdou não só o nome, como também o génio criativo, o pulso forte, a determinação e a habilidade para contar histórias. Maria Júlia Oliveira da Mota, mais conhecida por Júlia Ramalho, cedo se iniciou nas lides da cerâmica. Criada pela avó, acompanhava-a para todo o lado. Não foi, pois, surpresa para ninguém que se tornasse artista. Resoluta, atenta, de olhar vivo, assim o auspiciou Rosa desde logo. “Éramos muitos netos, mas já naquela altura a minha avó dizia que eu é que ia continuar”, recorda orgulhosamente, enquanto coloca o nariz àquilo que irá ser o Santo Adrião, padroeiro de Macieira de Rates.
Júlia Ramalho vendeu a primeira peça (um menino em cima de um cão), em Agosto de 1956, com apenas 10 anos, a António Quadros, que também descobriu Rosa para o mundo da arte, tinha então a célebre artesã perto de 70 anos. Foi na romaria da Sr.ª da Saúde, no Campo Lindo, no Porto, que o pintor lhe perguntou quem tinha feito aquelas peças em figurado. Rosa Ramalho, sem papas na língua, respondeu: “Fui eu, ora essa! Com estas mãozinhas que Deus me deu”. A fama bateu-lhe à porta, mas mesmo assim “continuou igual, sempre humilde, generosa, trabalhadora, muito ligada à família”, lembra. Com a avó, não aprendeu apenas o ofício, aprendeu também a ser mulher: “Ela sempre foi a minha grande companheira, foi com ela que aprendi as coisas boas da vida”.

“Parece caramelo”
É num anexo da sua casa, em Galegos S. Martinho, que nascem as peças de cor de mel, que já despertaram até apetites num cliente. “Uma altura um senhor virou-se para mim e disse: a sua louça é tão bonita que até me apetece comê-la, parece caramelo”, recorda a rir. Diabos, cabras, anjos, vacas com muitos cornos, cristos, pecados, virtudes, profissões, cenas da vida rural, figuras religiosas fazem parte do espólio da ceramista, que, em 2006, celebrou 50 anos de carreira. Mas a sua peça de eleição é uma medusa de mil cabelos gigante que guarda religiosamente no seu atelier. Tem 1,75 metros, é peça única e garante que não volta a repeti-la. A deusa marinha que um gigante tentou matar no fundo do mar nasceu das memórias infantis de Júlia. Foi elaborada há 25 anos, é a figura mais querida da artesã e das mais carismáticas de toda a colecção.
Supersticiosa, Júlia diz que também não volta a fazer peças polémicas - diz que “dão azar”. Já fez cristos com cornos e padres em poses menos próprias com freiras, mas isso trouxe-lhe contratempos.  “Coincidência ou não, nessas alturas acontecia-me sempre alguma coisa...”, recorda.
Tal como a avó, Júlia tem com as palavras uma relação límpida. Não fala para agradar, diz o que pensa. “Há pessoas que pensam que eu ganho muito dinheiro, que estou rica”, critica. O mais importante, continua, “é fazer o que se gosta e viver com dignidade”. Júlia gostaria mesmo era de “criar, criar, criar sem ter de estar condicionada”. Refere-se às encomendas, às quais torce o nariz: “Gostava de inventar sem ter de pensar em dinheiro, mas sei que isso não é possível”.

À sombra da mãe
A arte na família parece estar assegurada, pelo menos nos próximos tempos. Dos seus cinco filhos vivos (a vida feriu-a, levando-lhe dois), António e Teresa Ramalho são os que passam horas a acariciar o barro, o primeiro a tempo inteiro. Já a pequena Joana está agora a dar os primeiros passos na arte. “Satisfaz-me saber que a marca Ramalho vai continuar no tempo”, diz Júlia. 
António Ramalho, 42 anos, sabe o quanto pesa o apelido. “A herança é muito pesada”, afirma, ao mesmo tempo que alinha num tabuleiro saxofones em miniatura, uma encomenda original para oferecer como lembranças de casamento. Tem consciência de que “será muito difícil” descolar-se do trabalho da mãe. A solução terá que passar por criar algo novo. “Para me tornar independente, sei que tenho de inovar, inventar algo que não foi feito ainda”. Agrada-lhe a linha fantástica de Rosa Ramalho. Este ano, António irá participar pela primeira vez sozinho na Mostra de Artesanato de Barcelos.

Na Voz de Cláudia Milhazes, directota do Museu de Olaria
"Nome de Rosa Ramalho é intocável" 

Natural de Barcelos, Cláudia Milhazes está à frente do Museu de Olaria, o maior e mais importante do género no país, desde 1994. Neste trabalho dedicado a Rosa Ramalho, o Barcelos Popular esteve à conversa com a directora deste espaço museológico, detentor de cerca de 250 peças da barrista barcelense.

Enquanto barcelense, como é conviver diariamente com o espólio de Rosa Ramalho?
É um grande orgulho poder trabalhar, dispor e visualizar a sua obra todos os dias. Barcelos pode, de facto, orgulhar-se de ter alguém que representou a arte popular em Portugal de uma forma que poucos o conseguiram. Há, mais recentemente, mas em contextos sociais diferentes, casos que se poderão equiparar a ela. No entanto, penso que, no tempo de Rosa Ramalho, a nível nacional, não foi produzida obra tão notável como a dela.

É no Museu de Olaria que se encontra parte da colecção de Rosa Ramalho. Quantas peças há e de que género?
São cerca de 250 peças de figurado e representam as várias fases do seu trabalho. Temos algumas da primeira fase, quando ela ainda pintava as peças; temos alguma ‘miudagem’; depois há peças de características muito próprias, feitas na altura em que ela começou a contactar com os alunos de Belas-Artes da Universidade do Porto. Temos também várias figuras que não estão terminadas.

A colecção foi adquirida como?
Parte foi comprada, alguma foi doada e há peças que vieram de antiquários, de pessoas que compraram e que entretanto as disponibilizaram. Não temos exaustivamente todo o trabalho que Rosa Ramalho produziu, mas penso que a nossa colecção representa bem as várias fases da sua obra.

E o resto das obras, por onde andam?
Pelo país inteiro e algumas até no estrangeiro. Há imensos coleccionadores de Rosa Ramalho. Só no Porto há dez antigos estudantes de Belas-Artes que têm grandes colecções da barrista. E no resto do país também há muitos. Na Alemanha, por exemplo, há um coleccionador que também tem muita coisa.

Perante as pressões da arte contemporânea, como se vive e sente este tipo de criação?
Penso que já se desvalorizou mais este tipo de arte. Aos barcelenses, em particular, parece-me que Rosa Ramalho e o artesanato em geral já passaram mais ao largo do que agora. Felizmente, que as coisas mudaram e, agora, já se olha para uma peça de Rosa Ramalho ou de outro artesão e diz-se que é uma obra de arte.

Que pensam os visitantes da arte de Rosa Ramalho?
Pela experiência que tenho, posso dizer que a atitude dos visitantes face às exposições de figurado é muito mais forte do que às de olaria, porque o figurado está muito ligado a Barcelos. Claro que o de Rosa Ramalho suscita uma reacção ainda maior, pois ela é, sem dúvida, uma referência nessa área. Toda a gente gosta dos trabalhos dela, porque conseguem transmitir algo que não é comum. A componente fantástica das peças é o que mais comentam e apreciam.

Face ao aparecimento de novos barristas, como tem resistido Rosa Ramalho?
O nome de Rosa Ramalho é intocável. Penso que mesmo a neta, Júlia Ramalho, terá dificuldade em atingir o nível que a avó atingiu. Sobretudo porque ela continua com o trabalho iniciado pela avó, não que isso seja um demérito.

Júlia Ramalho é ou não uma seguidora à altura?
Acho que sim. O trabalho dela tem muita qualidade e uma criatividade muito forte. No entanto, não podemos esquecer que são contextos e épocas diferentes. A Júlia tem conhecimentos e um nível cultural que a avó não tinha e, isso, de certa forma, acaba por influenciar o trabalho dela. Não pondo em causa o mérito de Júlia Ramalho, acho que não podemos comparar as obras.

O que é que o Museu de Olaria faz para divulgar esta figura de vulto?
Rosa Ramalho é um tema que se impõe no nosso plano de actividades anual. Em Julho, será lançado o catálogo da colecção da barrista, em simultâneo com uma mostra que estará patente, entre dois a três anos, na sala de exposições de longa duração. Já fizemos várias iniciativas, como as jornadas de olaria, sobre a artesã, uma mostra de fotografia, outra em que o mote foi “Rosa Ramalho vista pelas crianças”, entre outras.

PROJECTO
Museu na casa onde viveu
A Câmara Municipal de Barcelos e a Junta de Freguesia de Galegos S. Martinho pretendem construir, na casa onde nasceu e viveu Rosa Ramalho, um museu em homenagem à barrista barcelense. O projecto está ainda em fase embrionária, suspenso por questões burocráticas. Joana Garrido, vereadora da Cultura da edilidade, explicou ao Barcelos Popular que “o vendedor ainda não conseguiu terminar o processo burocrático que permita a aquisição do terreno por parte da Câmara”.
O Museu Rosa Ramalho será certamente uma das principais referências para o concelho e, em especial, para a freguesia. Galegos S. Martinho continua a ser um dos maiores centros de cerâmica e olaria da região. A arte popular tem aqui um dos seus expoentes máximos, devido à excelência de homens e mulheres que habilidosamente moldam o barro e produzem o típico figurado de Barcelos. Rosa e Júlia Ramalho, Rosa e Ana Côta, Laurinda e Eduardo Pias, Maria de Jesus Pias, Maria Helena Pedro Silva, Maria de Lourdes Duarte Ferreira são apenas alguns nomes de barristas que dedicam – ou já dedicaram – a sua vida ao barro.

Casa em ruínas
A grandeza de Rosa Ramalho, a primeira artesã a ter reconhecimento nacional, contrasta com o estado avançado de degradação em que se encontra a casa onde nasceu e viveu, situada no lugar da Gandarinha, em Galegos S. Martinho. Trata-se de uma típica casa térrea minhota, com um pequeno terreno anexo, onde permanecem o “aloque”, o forno, os tanques de coar o barro e a famosa pedra – o “cavalinho” –  onde os filhos, netos  e bisnetos de Rosa Ramalho cavalgavam. Dentro da habitação, resistem o banco e a tábua onde a oleira transformava pedaços de barro em cabras, lagartos, monstros, reis, rainhas, pecados e virtudes.

Assinala-se este ano o 30º aniversário da morte de Rosa Ramalho. Serve, pois, esta simples evocação para prestar homenagem, recordar e dar a conhecer a herança da notável barrista popular portuguesa, que legou nas mãos da neta Júlia a continuidade da sua obra.

Rosa Barbosa Lopes, conhecida por Rosa “Ramalho”, nasceu a 14 de Agosto de 1888, em Galegos S. Martinho. Começou cedo a “acariciar” o barro, primeiro na casa de um vizinho, e depois, com apenas 13 anos, estabelecendo-se por conta própria. Aos 18 anos, casou e abandonou a arte, que só viria a retomar perto dos 70, após a morte do marido.
Analfabeta mas de uma imaginação prodigiosa, Rosa Ramalho criou e recriou o mundo à sua maneira com pedaços de barro. A sua obra vagueia entre o dramatismo e o fantástico, características que a distinguiram dos demais ceramistas e a tornaram numa figura emblemática da olaria tradicional portuguesa.

Autor: Filipa Oliveira
Sexta-feira, 15 de Junho de 2007 - 12:08:28

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COMENTÁRIOS
De: pedro granja em Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2013 às 12:08:28

Boa tarde, Vitor. OS textos jornalísticos não podem ser copiados. Podem, isso sim, serem utilizados para um trabalho, fazendo, sempre, a devida referência à fonte. Nesta caso ao Barcelos Popular e à autora da peça, a jornalista, Filipa Oliveira.
Cumprimentos
BP

De: vitor hugo em Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2013 às 12:08:28

nao da para copiar para um trabalho
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