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Terceira Idade
Quase 300 à espera de lar

O concelho tem oficialmente 373 idosos da região em 11 lares ou similares.

O concelho tem oficialmente 373 idosos da região em 11 lares ou similares, sendo que as instituições particulares de solidariedade social (IPSS) estão há muito lotadas e só o privado Hotel-Lar Condes de Barcelos (HLCB) tem vagas (seis). No global, a fila de espera do município cifra-se nas 278 pessoas. As instituições reconhecem o novo paradigma sociológico, mas vincam que possa haver ligeiro empolamento da estatística, pois há idosos a inscrever-se em mais do que um lar para garantir vaga, por vezes antes de atingirem a reforma.

Fonte do Ministério da Solidariedade Social disse não ser possível uma lista com rigor. Ao nível da Rede Social de Barcelos, quer-se reforçar o apoio domiciliário; o lar é tido como última instância. A Carta Social de 2008 cifrou 52.539 idosos em lares e residências no país, cuja capacidade total era de 53.373 vagas. Há ainda raros casos de famílias de acolhimento à terceira idade. A União de Misericórdias Portuguesas (UMP) discorda e insiste que as camas são claramente insuficientes.

No concelho, só a Santa Casa da Misericórdia possui cinco valências: 60 utentes no Lar Rainha D. Leonor, 52 no Lar Santo André, 38 no Lar da Misericórdia (Dependentes), 70 no Lar Nossa Sra. da Misericórdia e 12 no Lar de Silveiros. No total, tem mais 110 utentes a aguardar vez. E há mais cerca de 50 no Centro de Bem-Estar de Barqueiros, Centro Social da Silva e Casa do Povo de Alvito. Aliás, os dois últimos só têm capacidade para uma quarta parte da procura. No HLCB e na 5Sensi – Unidade de Cuidados Continuados, ambos privados, há vários acordos com a ARS-N. Por vezes, as famílias preocupam-se em ter o idoso num lar próximo, mas, curiosamente mal o visitam.

Há barcelenses a recusar viver no lar, "o caminho que anuncia a inevitabilidade [morte]". Os que aceitam sentem-se como na sua casa, ou pelo menos na segunda. Alguns casais veteranos ou amigas partilham quarto com WC privado, kitchenet, aquecimento central, telefone, TV, saleta e varanda. Actividades e novas amizades criam uma nova vida pós-70 anos, esquecem amarguras e há até quem se case (de novo). Além das conversas sobre o tempo e os tempos, os que têm menor grau de dependência podem usufruir de actividades pontuais de ginástica, dança, coral, literatura, teatro, informática, terapia ocupacional, artes plásticas, jogos típicos, artesanato, passeios, jornal, blogue...

"Não é criança grande"

O director do HLCB sente "orgulho em dar qualidade e inserção a quem não tinha qualquer apoio da sociedade ou retaguarda familiar ". "Foi difícil de início, mas [aos dez anos] estamos estáveis em custos e utentes, que coabitam livremente", diz Mário Carvalho ao BP. Há até casos de Alzheimer e esquizofrenia. A equipa clínica possui enfermagem permanente, medicina interna e psiquiatra. A maioria dos idosos está "por iniciativa própria" e seis têm acordo com a Segurança Social do Porto. O custo da estadia varia com o serviço prestado, como querer comida e roupa. A renda fixa é 1250 euros/mês. A crise "não afectou" este mercado específico. O director nota que os utentes facilmente se saturam de certas actividades e da repetição. "Mas têm uma experiência grande e é redutor tratá-los como crianças grandes. Apostamos na diversidade, desde jogos, filmes, conversas temáticas, pintura, leitura. Temos duas viaturas para ir a museus, à praia, ao teatro de variedades no Porto. Há duas animadoras culturais das 14h às 17h. Enfim, tenta-se ir ao encontro de cada um", explica.

Projectos inovadores

Na Misericórdia de Barcelos ressai o projecto intergeracional "Avós & Netos", que junta idosos e crianças, todos utentes da instituição. Os "avozinhos" visitam a Creche Familiar, convivendo com os miúdos, contam-lhes histórias, mostram os dotes de culinária. As crianças trocam cartas com os avozinhos e vêem exposições, como a de Vicente Mestre, de 86 anos. Destaque ainda para o projecto externo "Um Avô, Dois Sorrisos", um intercâmbio entre idosos do Lar D. Leonor e alunos do 8º ano da Escola Secundária Alcaides de Faria, que "adoptam" um avô todo o ano lectivo, driblando o isolamento e acentuando a vertente lúdico-educacional.

Segurança Social deu

2,7 milhões em 2009

A directora da Segurança Social de Braga, Carmo Antunes, referiu ao BP que se gastou 2.7 milhões de euros em respostas sociais a idosos no concelho em 2009: 1.4 milhões no apoio domiciliário, um milhão nos lares, 242 mil nos centros de dia e 23 mil nos centros de convívio.

Actualmente há nove acordos da Segurança Social que incluem 258 utentes de lares; 11 para 200 utentes de centros de dia; dois para 40 utentes de centros de convívio; e 21 para 478 utentes no apoio domiciliário. No ano passado, Barcelos tinha 20 centros de dia com 543 utentes e dois centros de convívio (Carreira e Perelhal) com 40 utentes.

PARES: novas valências

Segundo o plano online da Rede Social concelhia, o Programa PARES (Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais) vai co-financiar novos lares, ou requalificar existentes, em Vila Cova, Macieira de Rates, Tamel S. Veríssimo, Remelhe, Silveiros e Pousa.

Por exemplo, o Centro Social de Vila Cova (foto ao topo da pág. 3) abre até Maio com lar (30 utentes), centro de dia (20) e creche (45). Custou 1,2 milhões de euros, sendo 416 mil do PARES, 150 mil da Câmara e o resto de apoios da população e empréstimo bancário.

Há outras candidaturas. A Casa do Povo de Alvito espera fundos do POPH (Programa Operacional Potencial Humano) para ser "pioneira na região" a ter um lar/aparthotel geriátrico com residências autónomas tipo T0, para 50 utentes, estimado em 1.7 milhões de euros.

O Centro Zulmira Pereira Simões, IPSS nova na freguesia vizinha de Roriz, tem um projecto-piloto de lar/centro de dia/creche com a "responsabilidade natural" e social de empresas.

 

Foi parteira em Lisboa e vai fazer 99 anos

Mariana Encarnação Correia Silva Carvalho nasceu a 26 de Janeiro de 1911, em Elvas (Alentejo), e está quase a completar 99 anos, no Hotel-Lar Condes de Barcelos. "Nunca imaginei chegar a tanta idade. A família está muito contente. Mas já agora gostava de fazer os 100 anos, até mais!", sorri, numa simpatia desconcertante. Filha de um sargento, teve quatro irmãos: Alfredo, Diogo e, "ainda vivas", Ernestina e Maria Rosa. Dos seus cinco filhos, "só dois estão vivos".

Tirou o curso de parteira-enfermeira e trabalhou muitos anos na maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa. "Olhava pelas mulheres que estavam a ter os bebés. Era muito competente, todas gostavam de mim, comigo nunca houve 'desarranjos'", diz, segura. Também viveu em Leiria e veio para Barcelos após uma doença.

"Corri Seca e Meca", desfia. Custa-lhe a ausência dos pais e do marido. Porém, o apoio das "famílias", a biológica e a do hotel-lar, traz-lhe as coisas boas da vida. "Já voltei a Elvas, em visita, recordou-me a infância. Mas estar aqui é bom."

 

TRÊS PERGUNTAS A... Ana Rosa Miranda,

coordenadora da valência idosa da Misericórdia

"O afecto não tem preço"

Por que é que o crescimento das instituições para idosos não responde à evolução demográfica?

O aumento significativo do envelhecimento demográfico é um problema relativamente novo na sociedade. As transformações sócio-económicas e as estruturas familiares não acompanharam este crescimento. Viver mais anos, infelizmente, nem sempre é sinónimo de viver com qualidade. É necessária uma maior consciência e intervenção política. Ser pessoa idosa irá tocar a todos, urge assim a necessidade de uma política global e integral para a terceira idade. Os esforços realizados pelo Estado estão aquém de responder atempadamente às necessidades.

Em contrapartida, considera que a qualificação dos equipamentos melhorou?

Os equipamentos sociais que vão surgindo já oferecem melhores condições de conforto e segurança à luz das novas exigências legais, tendentes à respectiva certificação de qualidade. Pecam por serem tão poucos para as necessidades e porque permitem a existência de "lares" clandestinos que deixam idosos em situação de grande risco, vulneráveis e a ser tratados à mercê da consciência de cada um.

Como se gere as emoções com viúvas, deprimidos, acamados? Quais são os novos desafios colocados aos profissionais?

Cuidar de pessoas fragilizadas, a nível psíquico e emocional, nem sempre é fácil. Trabalhar a nível dos sentimentos e emoções é gratificante, mas exige dos cuidadores entrega pessoal e envolvência muito para além do que está definido nas suas funções. Esta entrega e esta dedicação nem sempre é compreendida e reconhecida. É comum surgirem momentos de tristeza e frustração porque pouco se pode fazer, pois trata-se de situações irreversíveis. Experimentam sentimentos associados a uma força interior porque tentam a todo o custo melhorar o seu bem-estar. O cuidar exige assim uma relação estreita entre a dignidade da pessoa, a tolerância, o diálogo e a solidariedade. "O afecto tem muito valor, mas não tem preço".

Autor: Nuno Passos
Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010 - 11:22:39

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